O disjuntivismo ecológico e o argumento causal

Autores

  • Eros Moreira de Carvalho UFRGS

Palavras-chave:

Disjuntivismo ecológico, argumento causal, affordances, indistinguibilidade, psicologia ecológica, retroalimentação dinâmica

Resumo

Neste artigo, argumenta-se que a abordagem ecológica da percepção oferece recursos para desarmar o argumento causal contra o disjuntivismo. Segundo o argumento causal, como os estados cerebrais que proximamente antecedem a experiência perceptiva e a experiência alucinatória correspondente podem ser do mesmo tipo, não haveria, portanto, uma boa razão para rejeitar que a experiência perceptiva e a experiência alucinatória correspondente tenham fundamentalmente a mesma natureza. O disjuntivismo com respeito à natureza da experiência seria, assim, falso. Identificam-se três suposições que apoiam o argumento causal: a suposição da indistinguibilidade, a suposição da linearidade e a suposição da duplicação. De acordo com a abordagem ecológica da percepção, essas suposições não se sustentam, abrindo espaço para a defesa de uma versão ecológica do disjuntivismo. Episódios perceptivos se estendem ao longo do tempo e são supervenientes ao sistema organismo-ambiente. Eles também podem ser distinguidos dos “correspondentes” episódios de alucinação, por serem o resultado de um processo controlado de sintonização, ao passo que as alucinações são passivas e refratárias às atividades de exploração e sintonização. Por fim, o disjuntivismo ecológico, na medida em que é imune ao argumento causal, se mostra vantajoso em relação aos disjuntivismos negativo e positivo.

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Biografia do Autor

Eros Moreira de Carvalho, UFRGS

Professor de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS – Brasil e Bolsista de Produtividade do CNPq. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-7267-5662.

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Recebido: 15/08/2022

Aceito: 07/02/2023

Publicado

19-05-2023

Como Citar

Moreira de Carvalho, E. (2023). O disjuntivismo ecológico e o argumento causal. TRANS/FORM/AÇÃO: Revista De Filosofia Da Unesp, 46, 147–174. Recuperado de https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/transformacao/article/view/13648