Resistindo à “guerra às drogas” a partir de Homero

a multivalência do phármakon na Odisseia

Autores

DOI:

https://doi.org/10.1590/0101-3173.2022.v45n2.p101

Palavras-chave:

Literatura Antiga, Homero, Phármakon, Drogas, Multivalência

Resumo

Propõe-se uma leitura de três episódios da Odisseia, nos quais há o uso de um phármakon. São Helena, Circe e Hermes as personagens que administram as phármaka. Trata-se de leitura: 1) vinculada a um projeto: o levantamento e a interpretação de discursos que se distanciem e/ou questionem a perspectiva da “guerra às drogas”, algo como um projeto de extração de elementos textuais que possam servir como ferramentas teóricas, na construção de uma perspectiva menos mortífera em relação às substâncias; 2) guiada por três princípios, os quais podem ser ditos anticoloniais e antirracistas. Leitura centrada no phármakon, mas que o articula à comida floral dos lotófagos e à relação de xenía; dela, apresenta-se a proposta segundo a qual, no texto homérico, há a valorização de algo que pode ser chamado de multivalência.

Biografia do Autor

  • Erick Araujo, Universidade de Brasília - UnB

    Programa de Pós-Graduação em Metafísica, Universidade de Brasília (UnB), Campus Universitário Darcy Ribeiro, Brasília, DF – Brasil.

  • Gabriele Cornelli, UnB

    Programa de Pós-Graduação em Metafísica, Universidade de Brasília (UnB), Campus Universitário Darcy Ribeiro, Brasília, DF – Brasil.

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Recebido: 22/6/2021 - Aceito: 20/12/2021

Publicado

29-03-2022 — Atualizado em 23-06-2022

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Como Citar

Resistindo à “guerra às drogas” a partir de Homero: a multivalência do phármakon na Odisseia. (2022). Trans/Form/Ação, 45(2), 101-126. https://doi.org/10.1590/0101-3173.2022.v45n2.p101