O INIMIGO NO ESPAÇO COLONIAL E O DISCURSO SOBRE RAÇA COMO OPERADOR BIONECROPOLÍTICO

Palavras-chave: Racismo, Biopolítica, Necropolítica, Colonialismo, Michel Foucault, Achille Mbembe

Resumo

O presente artigo busca pensar, tomando como base as obras de Achille Mbembe (2018) e Grada Kilomba (2019), a construção da figura do “inimigo”, ou do “Outro”, a partir do advento do conceito de raça e das práticas de racismo no seio das sociedades colonialistas. Isso porque a lógica colonial, de acordo com os autores supracitados, não admite qualquer tipo de vínculo entre o conquistador e o nativo ou o escravizado que não seja a partir da negação, da exclusão e da violência exercida por aquele no corpo destes, de tal sorte que o espaço da colônia se converte em um grande laboratório bionecropolítico. Para compreendermos, portanto, a necessidade de hierarquização entre uns e outros –e da consequente inferiorização do Outro-, partiremos da proposição de Mbembe, em seu ensaio Necropolítica (2018), na qual o autor identifica o racismo como a “condição para aceitabilidade do fazer morrer”. Nesse sentido, a conversão daqueles considerados inferiores, com base em critérios construídos pelo discurso europeu sobre “raça”, em inimigos passou a atuar como forma de justificar o exercício do poder punitivo e do poder de morte sobre esses corpos. Por fim, à guisa de conclusão, tentamos ressaltar que o considerado passado colonial e escravocrata ainda se faz presente em nosso cotidiano e na maneira de fazer política na contemporaneidade, ao atentarmo-nos para os frequentes episódios de genocídio do povo negro ainda no século XXI.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

ALMEIDA, S. Racismo Estrutural. Org. de Djamila Ribeiro. São Paulo: Pólen Livros, 2018. (Col. “Feminismos Plurais”)

BORGES, J. O que é encarceramento em massa? Org. de Djamila Ribeiro. São Paulo: Pólen Livros, 2019. (Col. “Feminismos Plurais”)

FERRI, E. Princípios do Direito Criminal: o criminoso e o crime. 2ª ed. Trad. Paolo Capitanio. Campinas: Bookseller, 1998.
FOUCAULT, M. Em Defesa da Sociedade. Trad. Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

______. História da Sexualidade: a vontade de saber. São Paulo: Paz e Terra, 2015.

GILROY, P. The end of anti-racism. In: DONALD, James; RATTANSI, Ali [ed.]. ‘Race’, Culture and Difference. Londres: SAGE, 1992, p. 49-61.

GUIMARÃES, A.S. A. Racismo e Antirracismo no Brasil. São Paulo: Editora 34, 1999.

HARAWAY, D. “Gênero” para um dicionário marxista. Cadernos Pagu, Campinas, v. 22, p. 201-246, 2004.

HOOKS, B. Talking Back: Thinking feminist, talking Black. Boston: South End Press, 1989.

KILOMBA, G. Memórias da Plantação: episódios de racismo contemporâneo. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

LEVI-STRAUSS, C. Raça e História. Lisboa: Presença, 1995.

LOMBROSO, C. O homem delinquente. Porto Alegre: Rivardo Lens, 2001.

MBEMBE, A. Crítica da Razão Negra. São Paulo: n-1 edições, 2018a.

______. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018b.

______. Necropolitics. Public Culture, v. 15, n. 1, pp. 11-40, 2003.

______. O Fardo da Raça. Trad. Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1 edições, 2018c. (Col. “Pandemia”)

______. Politiques de l'inimitié. Paris: Éditions La Découverte, 2016.

PELBART, P. P. Ensaios do Assombro. São Paulo: n-1 edições, 2019.

ZAFFARONI, E. R. O inimigo no Direito Penal. Rio de Janeiro: Revan, 2007. (Col. “Pensamento Criminológico”)
Publicado
2020-07-21