Imigrantes no regionalismo

percepções desde o Mercosul e a União Europeia

Autores

  • Karina Lilia Pasquariello Mariano Unesp-Araraquara
  • Letícia Figueiredo Ferreira
  • Vitória Totti Salgado

DOI:

https://doi.org/10.36311/2237-7743.2021.v10n1.p75-101

Palavras-chave:

Migração, Securitização, União Europeia, Mercosul

Resumo

A construção de políticas migratórias sempre foi uma questão central para os países, especialmente, nas últimas décadas, com a intensificação dos processos de integração ao redor do mundo, que passaram a incorporar o debate sobre a livre circulação de pessoas e a harmonização das regras de migração entre os Estados-Membros. Enquanto a União Europeia desenvolveu uma política comum que abrange tanto a questão da circulação interna de pessoas como as regras de entrada de migrantes extrabloco, no Mercosul, a política migratória é exclusivamente nacional, havendo discussões entre os membros apenas sobre princípios comuns. Apesar das diferenças, nos últimos trinta anos houve uma mudança na compreensão dos migrantes em ambos os processos de integração regional, marcada pelo fortalecimento da desconfiança em relação aos que vêm de regiões externas. O objetivo deste artigo é discutir o processo de securitização da agenda migratória nos dois blocos regionais, analisando suas distinções e especificidades. Não pretendemos realizar uma comparação entre os blocos, mas demonstrar que existe uma dinâmica semelhante em ambos apesar de suas diferenças. A hipótese de nossa análise é que essa mudança na percepção dos migrantes está relacionada a uma narrativa de crise que estimulou o surgimento de movimentos extremistas e nacionalistas no século XXI, concomitante ao aumento dos fluxos migratórios nos dois continentes. O artigo baseia-se em um enfoque histórico, fundamentado em documentos oficiais da União Europeia, do Mercosul (e seus respectivos Estados-membros) e de organismos internacionais.

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Biografia do Autor

Karina Lilia Pasquariello Mariano, Unesp-Araraquara

Professora Associada da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP e do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC/SP). Coordenadora da Rede DIPP (Development, International Politics and Peace), financiada pelo Programa CAPES-Print. Pesquisadora do Instituto Nacional de Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), do Observatório de Regionalismo (ODR) e da Rede de Pesquisa em Política Externa e Regionalismo (REPRI). Bolsista produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Áreas de interesse: Regionalismo; Instituições Regionais; Democracia; América Latina.

Letícia Figueiredo Ferreira

Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais ‘San Tiago Dantas’ (Unesp, Unicamp, PUC-SP), com pesquisa financiada pela CAPES. Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PEPI-UFRJ) e bacharela em Relações Internacionais pela mesma universidade. Pesquisadora vinculada ao Observatório de Regionalismo (ODR), à Rede de Pesquisa em Política Externa e Regionalismo (REPRI), ao Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (NEAI) e ao Grupo de Estudos da Eurásia (GEsEU). Desenvolve pesquisa sobre o regionalismo europeu, com foco no Grupo de Visegrado e na projeção russo-germânica na Europa Centro-Oriental. 

Vitória Totti Salgado

Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais ‘San Tiago Dantas’ (Unesp, Unicamp, PUC-SP) na área de concentração ‘Instituições, Processos e Atores’, com pesquisa parcialmente financiada pela CAPES. Bacharela em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Câmpus Franca. Pesquisadora vinculada ao Observatório de Regionalismo (ODR), à Rede de Pesquisa em Política Externa e Regionalismo (REPRI), ao Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) e à Rede de Pesquisa Internacional DIPP (Development, International Politics and Peace). Desenvolve pesquisa sobre os regionalismos europeu e sul-americano, especificamente sobre a cooperação e integração regional no âmbito da defesa e segurança, e sobre a securitização dos fluxos migratórios. 

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Publicado

2021-10-29

Edição

Seção

Edição Especial