Comentário a “Reminiscência e alma remêmora no Fédon de Platão”

 

Izabela Aquino Bocayuva[1]

 

Referência do artigo comentado: Rachid, r. j. r. Reminiscência e alma remêmora no Fédon de Platão. Trans/form/ação: revista de filosofia da Unesp, v. 44, n. 4, p. 294 –314, 2021.

 

Rodolfo José Rocha Rachid, em seu artigo “Reminiscência e alma remêmora no Fédon de Platão”, através de um vocabulário bastante rebuscado, contribui muito para o retorno à discussão em torno da imbricação entre mito e racionalidade, em Platão. Seu texto provoca esse retorno, à medida que acentua a necessidade de a argumentação racional platônica fundar-se em elementos míticos, como são o caso da reminiscência e da imortalidade da alma. A alma filosófica ou alma remêmora recupera, em sua nova vida, num exercício continuado de afastamento do sensível, sua condição sábia e sagrada de contato direto com o ser e a verdade, recuperação essa concomitante à purificação de seu ethos, decaído desde o nascimento, por ter sido obrigada, ainda no Hades, a beber da água do rio Lethe, o rio do esquecimento. Cito Rachid (2021, p. XX):

A reflexão deontológica, preceituada por Sócrates, não prescinde da experiência do sagrado, de modo que coexistem no corpus platônico dois âmbitos considerados irreconciliáveis por parte das categorias modernas de pensamento, a reflexão filosófica e a abordagem cultual. [...] A interpretação do Fédon permite aferir o nexo entre experiência cultual e análise racional

 

            Na verdade, não é apenas a ética que se articula com o sagrado e a mitopoética tipicamente platônica, mas também sua epistemologia, sua política e sua metafísica das Formas. Platão constrói a imagem do filósofo como um homem de exceção, bem aos moldes do poeta do Poema de Parmênides que é separado da “senda dos mortais” para vir a ter a experiência numinosa da verdade em contato direto com uma deusa. O filósofo não se apresenta apenas como o homem moralmente excelente, incorruptível. Em Platão, o que o filósofo – ou sua alma – vê, sabe ou, como diz o texto de Rachid, o que ele lembra, rememora, pertence sempre ao âmbito imortal, verdadeiro, perene – o âmbito do ser e da verdade. Isso justifica que ele e só ele seja o rei que tem plena autoridade sábia, para até mesmo prescindir das leis escritas. No Fédon, o filósofo é o que exercita a morte, no sentido de praticar a separação do que é perecível, mutável, para, por fim, alçar-se, purificado, à imortalidade na ilha dos bem-aventurados ou terra dos heróis, uma vez que, em tese, a alma é imortal.

Ainda no Fédon, mas também no Ménon, a questão da imortalidade da alma é inseparável da questão da reminiscência. Aprender é rememorar as Formas em si (puras, separadas) já contempladas antes do nascimento, tal como fica exposto no Fedro. O sensível pode ajudar nesse processo de rememoração, por semelhança ou dissemelhança, mas necessariamente mantendo distância ontológica em relação à Forma rememorada. O método dialético articulado com elementos empíricos também deve ajudar o filósofo a dar o salto súbito da recordação do ser. Tudo, na imagem dos filósofos, aponta para um para além, e Platão se vale explicitamente do mito para figurar essa dimensão, seja no Ménon, seja no Fédon, no Fedro – bem como na República, no Górgias etc. Pelo uso explícito do mito na argumentação racional, tanto ética quanto epistemológica e ontológica, a qual Platão leva a cabo, e pela relação estreita que observamos entre todos esses âmbitos discursivos, estamos de acordo com Rachid de que são indeslindáveis. Entretanto, vemos necessidade em questionar a abrangência da mitopoiesis platônica.

            Parece-nos que, mesmo nos diálogos finais, onde Platão revê sua metafísica canônica de dois mundos e não alude mais à imortalidade da alma e reminiscência, está operando na base de seu pensamento aquele para além que constitui fundamentalmente a imagem do filósofo e que, em diálogos anteriores, tinha nexo direto com os mitos por ele elaborados. No Parmênides, por exemplo, ele abandona a discussão dos dois mundos, para permanecer apenas na dimensão para além, o inteligível, sem qualquer referência ao sensível. No Sofista, outro exemplo, dá-se o mesmo: o não-ser passa à dimensão do inteligível, enquanto gênero da alteridade, sendo o gênero outro nome para o que anteriormente era denominado ideia. No Político, mais um exemplo: o rei ou político (ou filósofo – o que tem a ciência) é o único que sabe o Bem e, por isso, deve governar. Poderíamos entender que ele é o único que rememora o ser de todas as coisas.

            Assim, a dimensão celeste, sagrada, ideal, sem mais apelar para mitos, perdura. Parece que a mitopoiesis explícita inaugural no pensamento platônico havia já cumprido seu papel. A realidade de um “para além” havia se consolidado, entretanto, a dimensão mítica com a qual Platão contou para construir sua narrativa racional continua sendo imprescindível, ainda que oculta.

            Podemos dizer que o autor-filósofo Platão reúne nele dois traços necessariamente: o do político e o do educador. Digo isso, sabendo que há diversas exegeses do pensador grego que procuram eliminar o traço político, em seu pensamento, a começar com os neoplatônicos e terminando com os que ainda hoje querem apagar a influência nefasta da interpretação poperiana do pensamento platônico. No entanto, não vejo que seja possível pular a própria sombra. Toda obra platônica tem motivação política. E, como ele mesmo deixa muito claro, no Político, a primeira função do político (o rei-filósofo) é educar, é instruir minuciosamente, através de princípios claros, os que irão educar diretamente os homens.

O autor Platão, que decide fazer a política perfeita, de exceção, não misturada nos meandros da política vil de todo dia, uma política que se afasta da multiplicidade e da variação, usa a sua obra como instrumento de educação dirigindo tudo e todos, passo a passo, para o seu princípio supremo: o um. Assim, sua metafísica inicial sempre apontou para a unidade da ideia. Sua metafísica final mostra o mesmo, através da dialética, encaminhando tudo para o um, o conceito suficiente e necessário. Sua ética mostra ainda o mesmo, à medida que encaminha para a base fundamental da articulação entre sophrosýne e andreía, única capaz de apreender em uníssono o Belo uno, o Bom uno e o Justo uno.

Ora, os mitos escatológicos da imortalidade da alma implicam e configuram o âmbito divino, separado, imperecível, puro, onde habitam as Formas unas. A alma remêmora tem acesso justamente a elas e só por isso conhece. Esse mundo separado, onde habitam as unidades, inicialmente sustentado por mitos e depois consolidado como realidade necessária, tem, em Platão, uma função ao mesmo tempo educativa e política, o que nos faz lembrar a República, onde é sugerido que o rei-filósofo, único conhecedor do Bem, para um convencimento amplo e pacífico da população, deva apresentar-lhe uma mentira útil, mostrando, num mito, que uns nasceram com o coração de ouro, outros de prata, outros de bronze.

No Fédon, mas também no Górgias, como igualmente no mito de Er, da República, os mitos escatológicos, comprometidos de algum modo com a tese da imortalidade da alma, parecem mesmo ter a função de pelo menos assustar o ouvinte, endereçando-o a uma conduta exemplar, não reprovável aos olhos dos deuses, mas, com isso, também direcioná-lo àquele mesmo um, comum aos que sabem em uníssono do Bem, do Belo, do Justo.

Eis algumas questões em que a leitura do artigo de Rachid me fizeram pensar.

 

Referência

Rachid, r. j. r. Reminiscência e alma remêmora no Fédon de Platão. Trans/form/ação: revista de filosofia da Unesp, v. 44, n. 4, p. 294 –314, 2021.

 

Recebido: 04/6/2021

Aceito: 09/6/2021


 

 



[1] Professora Titular em Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, RJ – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1571-1860. E-mail: izabelabocayuva@gmail.com.