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Galvão, M.C.B.; Santos, S.L.V.; Braga, R.D.; Ricarte, I.L.M.; Oliveira, T.L. Educação Continuada sobre
Terminologias Clínicas no Contexto da Saúde Digital. Brazilian Journal of Information Science: research
trends, vol.17, Dossiê: Transversalidade e Verticalidade na Ciência da Informação, publicação contínua 2023,
e023061. Doi 10.36311/1981-1640.2023.v17.e023061
EDUCAÇÃO CONTINUADA SOBRE
TERMINOLOGIAS CLÍNICAS NO CONTEXTO DA
SAÚDE DIGITAL
Continuing education about terminologies in the digital health context
Maria Cristiane Barbosa Galvão (1), Silvana de Lima Vieira dos Santos (2),
Renata Dutra Braga (3), Ivan Luiz Marques Ricarte (4), Thais Lucena de Oliveira (5)
(1) Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Brasil,
mgalvao@usp.br
(2) Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Goiás, Brasil,
silvanalvsantos@ufg.br
(3) Instituto de Informática da Universidade Federal de Goiás, Brasil,
renatadbraga@ufg.br
(4) Faculdade de Tecnologia da Universidade Estadual de Campinas, Brasil,
ricarte@unicamp.br
(5) Ministério da Saúde, Brasil, thais.lucena@saude.gov.br
Resumo
A força de trabalho de um sistema de saúde é multidisciplinar, requerendo treinamento interprofissional e
conhecimentos específicos para atuar no contexto da saúde digital, como aqueles sobre terminologias em
saúde. Assim, teve-se por objetivo apresentar o processo de criação, implantação e avaliação de um curso
sobre terminologias em saúde com foco em profissionais que atuam no Sistema de Saúde Brasileiro. Para
tanto, empregou-se a pesquisa de cunho documental associada a dados obtidos a partir de uma pesquisa de
opinião. O curso de terminologias em saúde contou com o desenvolvimento de e-book, videoaulas e outros
materiais didáticos, sendo implementado via Moodle. Sua primeira oferta foi realizada em 2022 e contou
com a participação de 136 profissionais da saúde que, em sua totalidade, afirmaram que o curso contribuiu
para ampliar os conhecimentos sobre terminologias em saúde. A satisfação geral do curso e com o material
didático foi maior entre os participantes com mais de 31 anos. Recomenda-se que as iniciativas de ensino
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à distância sobre a temática de terminologias em saúde sejam desenvolvidas, bem como sugere-se um
acompanhamento longitudinal dos egressos para melhor conhecer o impacto dos conhecimentos adquiridos
no cotidiano desses profissionais.
Palavras chave: Terminologia em saúde; Educação continuada; Profissionais da saúde; Sistema de saúde
Abstract
The workforce of a health system is multidisciplinary, requiring interprofessional training and specific
knowledge to work in the context of digital health, such as those about health terminologies. Thus, the study
aimed to present the creation, implementation and evaluation process of a course on health terminologies
focused on professionals working in the Brazilian Health System. For that, documentary research was
developed associated with data obtained from an opinion poll. The health terminology course included the
development of an e-book, video lessons and other teaching materials, being implemented via Moodle. Its
first offer was held in 2022 and had the participation of 136 health professionals who, as a whole, stated
that the course contributed to expanding their knowledge of health terminologies. Overall satisfaction with
the course and with the didactic material was higher among participants over 31 years old. It is
recommended that distance learning initiatives on the topic of health terminologies be developed, as well
as a longitudinal follow-up of graduates to better understand the impact of the knowledge acquired in the
daily lives of these professionals.
Keywords: Health terminology; Continuing education; Health professionals; Health system.
1 Introdução
Na gênese da Ciência da Informação, há uma expressiva produção de estudos que versam
sobre os processos de busca, seleção, organização, representação e disseminação da informação
de caráter bibliográfico, arquivístico ou museológico, que ocorrem em instituições fortemente
estabelecidas como as bibliotecas, os museus e os arquivos (Galvão 1998; Smit 2012; Araújo
2006). A partir de sua gênese, foram reconhecidas, no Brasil, as profissões de Bibliotecário,
Arquivista e Museólogo (Brasil 1962, 1978, 1984), cujo exercício demanda, primeiramente, a
realização de um curso de graduação, bem como registro em conselho profissional. Esta formação
inicial da graduação pode ser complementada por mestrado e doutorado na mesma área ou em
áreas correlatas. Em uma visão panorâmica da área, pode-se dizer sem equivoco que os currículos
de graduação e pós-graduação do campo da Ciência da Informação contemplam disciplinas
relacionadas à organização e representação da informação que, por muitas vezes, vão aprimorar os
processos de trabalho desses profissionais em diferentes instituições.
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Paralelamente às conquistas históricas mencionadas, a Ciência da Informação também se
caracteriza por ter expandido sua atenção, enquanto ciência que estuda os fenômenos
informacionais, para outros contextos informacionais. Essa ampliação de interesse perpassa grande
parte da construção epistemológica da área desenvolvida ao longo dos últimos 70 anos, fato que
subsidia as perspectivas interdisciplinares, multidisciplinares, colaborativas e intersetoriais da área
(Saracevic 1995; Holland 2008; Araújo 2014).
Em relação ao campo da Saúde, existe uma grande profusão de estudos provenientes da
Ciência da Informação que versam sobre os mais diferentes objetos. Especialmente, no campo da
organização e representação de informação no contexto da saúde vale ressaltar, entre muitos
outros, os estudos de Pinto (2006), Pinto et al. (2020), Galvão et al. (2008), Galvão e Ricarte
(2012, 2021), Galvão (2019, 2021), Pessanha e Bax (2015) e Moraes (2021), que se aproximam
mais do contexto clínico, priorizado no presente estudo.
Dessa maneira, deixa-se explicitado ao leitor que este estudo não versa sobre os contextos
mais tradicionais relacionados à organização e à representação da informação em bibliotecas,
museus e arquivos onde o profissional da informação (Bibliotecário, Arquivista e Museólogo) é o
ator principal dos processos referidos, mas sim versa sobre o contexto clínico da assistência em
saúde onde são os profissionais da saúde que dialogam entre si e registram informações clínicas
no prontuário do paciente a fim de que essas informações sejam utilizadas por diversos agentes do
sistema de saúde, em diferentes tempos e espaços. Logo, reconhece-se aqui a existência de
processos de organização e representação da informação em saúde que raramente tem o privilégio
de contar com a assessoria de um profissional da informação, embora este profissional possa
exercer um papel relevante para melhorar a qualidade das representações neste contexto, pois
possui formação voltada para tais processos.
O sistema de saúde compreende todas as organizações, instituições e recursos que são
dedicados à produção de ações de saúde, sejam coletivas ou individuais. Uma das características
dos sistemas de saúde é congregar uma força de trabalho heterogênea e em constante mutação,
visto que as problemáticas de saúde vão se alterando em diferentes contextos e momentos
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históricos (World Health Organization, 2000). A força de trabalho de um sistema de saúde,
conforme representado na Figura 1, é composta por uma equipe multiprofissional que atua:
na assistência direta do paciente, como: Assistentes Sociais, Biomédicos, Enfermeiros,
Farmacêuticos, Fisioterapeutas, Fonoaudiólogos, Médicos, Nutricionistas,
Odontólogos, Profissionais de Educação Física, Psicólogos, Terapeutas Ocupacionais;
na gestão da assistência, incluindo-se as profissões citadas, mas também:
Administradores, Gestores, Economistas, Contabilistas, Contadores, Matemáticos,
Estatísticos, Cientistas Sociais;
na gestão da informação e dos processos que ocorrem antes, durante e após a assistência
de cada paciente, podendo incluir os profissionais da assistência direta e os
profissionais da Administração e Gestão, mas também Analistas de Sistemas,
Engenheiros, outros Profissionais que atuam no campo da Tecnologia da Informação.
Com menor frequência, podem ser encontrados na gestão da informação clínica,
Bibliotecários, Documentalistas, Arquivistas, Jornalistas, Profissionais de Publicidade
e Propaganda e Comunicação.
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Figura 1 - O sistema de saúde e sua equipe multiprofissional
Fonte: Elaborado pelos autores
Por essas considerações iniciais é de se imaginar que os processos de comunicação em um
sistema de saúde são bem complexos, por envolverem profissionais provenientes de diferentes
campos do conhecimento, que empregam terminologias específicas de suas profissões e que
precisam interagir no sistema de saúde para que as atividades sejam desenvolvidas com eficácia.
Uma das potenciais soluções buscadas para superar essa problemática tem sido a formação
interprofissional, onde estudantes de diferentes cursos de graduação fazem as mesmas disciplinas,
atuam conjuntamente em projetos de pesquisa ou extensão, ou são inseridos em contextos
assistenciais que incentivam práticas colaborativas (Azzam et al. 2022; Miguel et al. 2023).
Todavia, existem limitações para a formação interprofissional, quais sejam: 1) nem sempre os
cursos de graduação possuem a infraestrutura necessária para o desenvolvimento de atividades
colaborativas, visto que existe uma limitação de espaço nas unidades de saúde para receber uma
quantidade maior de estudantes (Farinha et al. 2023); 2) resistência dos corpos docentes mais
tradicionais e conservadores para receber alunos de outras áreas em suas disciplinas ou projetos;
3) muitas vezes, a formação interprofissional demanda mudanças estruturais nas instituições de
ensino ou traz dificuldades teórico-conceituais e metodológicas (Viana et al., 2021). Logo, a
Equipe de gestão de
dados e informação
Equipe de gestão da
assistência
Equipe de
assistência direta
Paciente
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educação continuada dos profissionais de saúde que atuam no sistema de saúde surge como
importante alternativa para a formação interprofissional (Viana et al., 2021).
No que se refere à comunicação no contexto da assistência em saúde, ela pode ser realizada
oralmente sem suporte informacional, em suporte papel ou em suporte digital. Para que esta
comunicação seja efetiva se fazem necessárias competências linguísticas, comunicacionais,
tecnológicas e de cooperação. Notadamente, se faz necessário o conhecimento e uso das
terminologias em saúde (Galvão e Ricarte, 2012).
As terminologias em saúde possuem assim funções comunicativas, sendo necessárias em
múltiplas situações, como na implementação da assistência, proposição de hipóteses diagnósticas,
definição de diagnósticos, intervenções clínicas, aferição e comparação de resultados, avaliação
de custos e benefícios, criação de evidências científicas, criação de estatísticas confiáveis sobre
mortalidade, morbidade e comorbidade, compreensão e interpretação de cenários epidemiológicos
de instituições e de territórios (Galvão et al. 2008; Galvão 2019; Zhang et al. 2021).
Especialmente, no contexto da saúde digital, vivenciado na última década e intensificado
com a pandemia de COVID-19 (Whitehead et al. 2023), o uso de terminologias em saúde tem seu
lugar ao sol pois existe uma grande expectativa para uma maior e melhor organização, recuperação,
análise, sistematização e interoperabilidade de sistemas de informação fragmentados, redundantes,
desorganizados, desarticulados e inacessíveis (Torab-Miandoab et al. 2023). Adicionalmente,
neste cenário de sistemas digitais, é importante considerar que são os profissionais de saúde em
parceria com seus pacientes que possuem, por razões éticas, de autonomia, de confiança e de
justiça, a última palavra sobre o estabelecimento de diagnósticos ou procedimentos a serem
realizados, mesmo que existam sistemas informatizados de apoio à decisão clínica ou inteligências
artificiais disponíveis para uso (Tang et al. 2023; Benzinger et al. 2023).
Em sintonia com o cenário internacional, no contexto brasileiro, muitas iniciativas têm sido
realizadas com foco na saúde digital (Brasil 2020), com destaque para o estabelecimento de
padrões de interoperabilidade por meio de Portaria específica do Ministério da Saúde (Brasil
2011), onde foram apresentadas as principais classificações, terminologias e ontologias que devem
ser empregadas pelos sistemas de informação em saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde
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Galvão, M.C.B.; Santos, S.L.V.; Braga, R.D.; Ricarte, I.L.M.; Oliveira, T.L. Educação Continuada sobre
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(SUS) e, em fase de desenvolvimento embrionário, o Repositório de Terminologias em Saúde
(Brasil 2023), pouco conhecido e com várias limitações de usabilidade, que dificultam sua
compreensão e uso mais amplo.
Pelo exposto e compreendendo a importância das terminologias em saúde para criar
melhores sistemas de informação e embasar decisões adequadas e conscientes por parte dos
profissionais de saúde, este estudo teve por objetivos descrever o processo de criação, implantação
e avaliação de um curso sobre terminologias clínicas em saúde com foco em diferentes
profissionais que atuam no Sistema de Saúde Brasileiro.
2 Metodologia
Este estudo partiu de uma pesquisa exploratória. Tal opção foi a melhor estratégia
encontrada pelos pesquisadores, pois, paralelamente, também estavam atuando na linha de frente
da emergência de saúde global declarada em 11 de março de 2020 e encerrada em 5 de maio de
2023, em decorrência da pandemia de COVID-19. A opção por uma pesquisa de caráter
exploratório também deveu-se, em grande medida, pela escassez de estudos voltados para o ensino
de terminologias em saúde com foco na equipe multiprofissional de um sistema de saúde, que
pudesse servir de parâmetro para o estudo atual. Obviamente, como detalhado na introdução, não
se objetivou analisar abordagens de ensino-aprendizagem com foco em profissionais da
informação, onde uma maior profusão de estudos da Ciência da Informação (Ortega 2013;
Nascimento 2019; Martins e Oliveira 2022).
Gil (2008) esclarece que as pesquisas exploratórias possuem menor rigidez no
planejamento, porém são úteis para compreensão inicial de fenômenos a fim de que futuros estudos
aprofundem a temática. A partir de resultados de uma pesquisa exploratória pode-se, então,
reconhecer aspectos de um problema que podem ser passíveis de investigação mediante
procedimentos mais sistematizados e robustos.
Apesar das pesquisas exploratórias assim se declararem, alguns pesquisadores entendem
que falta cientificidade nesta abordagem. Neste sentido, faz-se necessário esclarecer que todas as
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abordagens científicas (quantitativas ou qualitativas, exploratórias ou não) podem ter vieses pois
a ciência é construída por sujeitos que carregam subjetividade e que constroem um discurso
aproximativo, provisório e incessantemente suscetível de questionamentos, revisão e
aprimoramento (Japiassu 1975; Minayo 2017). Assim, cabe ao cientista esclarecer, na medida do
possível, as limitações encontradas na construção dos estudos a fim de que seus pares tenham mais
elementos para construir futuros estudos que superem as limitações apresentadas.
Esta pesquisa exploratória partiu de uma análise documental (Creswell 2009), incluindo-
se mensagens trocadas por email, análise de ementa, videoaulas, materiais didáticos
desenvolvidos, indicações de referências bibliográficas de um curso sobre terminologias em saúde,
ofertado à distância por uma universidade pública brasileira, bem como foram considerados na
análise dados anonimizados, agregados e relacionados à avaliação do curso por meio de pesquisa
de opinião com os participantes, tomando-se por base a Resolução 510 (Brasil 2016).
Adicionalmente, este estudo exploratório não se confunde com um estudo envolvendo
métodos mistos. Os estudos mistos nascem mistos, são planejados para </