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SOUSA, Raquel Juliana Prado Leite de; TAFFARELLO, Tadeu Moraes. Catalogação no Domínio da Música: análise
exploratória pela perspectiva da Organização da Informação. Brazilian Journal of Information Science:
research trends, vol. 17, publicação contínua, 2023, e023051. DOI: 10.36311/1981-1640.2023.v17.e023051.
CATALOGAÇÃO NO DONIO DA SICA:
análise exploratória pela perspectiva da Organização da
Informação
CATALOGING IN THE MUSIC DOMAIN: exploratory analysis from the perspective of Information
Organization
Raquel Juliana Prado Leite de Sousa (1), Tadeu Moraes Taffarello (2)
(1) Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Brasil, raqueljp@unicamp.br
(2) tadeumt@unicamp.br
Resumo
A catalogação é uma atividade usual na Musicologia, podendo ser considerada um indício da
interdisciplinaridade com a Ciência da Informação. Dessa forma, este trabalho visa a explorar a catalogação
na Musicologia e seus pontos de contato com a Organização da Informação. O corpus de análise é
constituído por 38 dissertações e teses defendidas na Música e Artes, levantadas na BDTD e no Catálogo
de Teses e Dissertações da CAPES. O mapeamento bibliométrico permitiu identificar que: a evolução
temporal mostrou um pico de trabalhos defendidos em 2012; a maioria dos trabalhos é de mestrado e foi
defendida na área de Música, sendo a UFMG a instituição de ensino com mais trabalhos realizados; a maior
parte dos mesmos foi feita no Sudeste, tendo Carlos Alberto Figueiredo Pinto o orientador com o maior
número de orientações; apenas dois membros de bancas de defesa possuem formação na área de CI; e os
assuntos “catálogo” e “catalogação” ganham destaque dentre as palavras-chave. A Análise de Conteúdo
revelou que os catálogos objetivam organizar para preservar a memória, reunir, disseminar, funcionar como
ferramenta de pesquisa, além de fazer apreciação crítica e homenagear compositores. Percebe-se que esta
pesquisa, por si só, não pode comprovar a interdisciplinaridade entre Ciência da Informação e Musicologia,
pois se trata de um estudo exploratório. Mesmo assim, foi observada uma proximidade entre as áreas, pela
apropriação da informação enquanto objeto de pesquisa.
Palavras-chave: Catalogação; Musicologia; Ciência da Informação; Informação como objeto de estudo
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SOUSA, Raquel Juliana Prado Leite de; TAFFARELLO, Tadeu Moraes. Catalogação no Domínio da Música: análise
exploratória pela perspectiva da Organização da Informação. Brazilian Journal of Information Science:
research trends, vol. 17, publicação contínua, 2023, e023051. DOI: 10.36311/1981-1640.2023.v17.e023051.
Abstract
Cataloging is a usual activity in Musicology, being an indication of interdisciplinarity with Information
Science. Therefore, this work aims to explore cataloging in Musicology and its points of contact with the
Organization of Information. The corpus of analysis consists of 38 dissertations and theses defended in
Music and Arts, collected in BDTD and in the CAPES Catalog of Theses and Dissertations. Bibliometric
mapping made it possible to identify that: temporal evolution showed a peak in works defended in 2012;
the majority of the works are master's degrees and were defended in the Music area, with UFMG being the
educational institution with the most work carried out; most of them were performed in the Southeast of
Brazil, with Carlos Alberto Figueiredo Pinto being the advisor with the largest number of orientations; only
two members of defense panels have training in the IC area; and the subjects “catalog” and “cataloging
stand out among the keywords. Content Analysis revealed that catalogues, in Musicology, aim to organize
to preserve memory, gather, disseminate, function as a research tool, in addition to providing critical
appreciation and honoring composers. It is clear that this research, in itself, cannot prove the
interdisciplinarity between Information Science and Musicology, as it is an exploratory study. Even so, a
proximity between the areas was observed, due to the appropriation of information as an object of research.
Keywords: Cataloging; Musicology; Information Science; Information as an object of study
1 Introdução
De acordo com Harden (2017), nas bibliotecas, durante séculos, não foi necessário ter um
padrão para descrição bibliográfica, pois os catálogos eram elaborados por indivíduos que
trabalhavam sozinhos, em unidades que funcionavam de forma isolada, sendo que apenas
recentemente eles começaram a tomar a forma de um recurso de informação. Em acervos
especializados em música, segundo Krummel, houve uma época em que se podia trabalhar
‘livremente’, com padrões próprios e definidos de acordo com a visão pessoal de cada
‘catalogador’. Entretanto:
Ambos, o mundo da música e o mundo das bibliotecas continuam crescendo fora
de controle. (Então, o que há de novo?). Aquele viu uma proliferação de escritos,
tipos de interesses e comunidades de leitores experientes. O outro tem visto uma
proliferação de práticas para lidar com técnicas bibliotecárias. (A biblioteca de
música era um lugar tão seguro e feliz na década de 1950: diga isso aos veteranos
e veja-os rir!). (Krummel 2004 p. 12 tradução nossa)
Como a explosão informacional não afeta somente as áreas que lidam diretamente com a
informação enquanto objeto de trabalho e pesquisa, pois a informação é um elemento transversal
a todos os domínios (Pinheiro 2014). Assim, lidar com estoques cada vez maiores de registros do
conhecimento é um desafio compartilhado que pode ser analisado de forma transversal entre as
áreas.
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No domínio da Música, ou então, mais especificamente, da Musicologia, a necessidade de
organizar as obras para que pudessem ser executadas e estudadas sempre foi uma preocupação
constante e que exigia certo nível de detalhamento. Se um quarteto de cordas quiser fazer a
apresentação de uma fuga barroca, não lhe serviuma partitura de uma obra para fagote e piano
da era clássica. Se alguém está estudando violino, não lhe servirão exercícios para o contrabaixo.
Quando um regente de orquestra precisa montar um espetáculo, necessita não somente das partes,
que serão disponibilizadas aos músicos instrumentistas, mas também da partitura geral, contendo
toda a música a ser tocada. Portanto, tal organização deve dar conta de estabelecer um mínimo de
dados sobre autoria, períodos, performance etc., sempre a depender da função da unidade de
informação.
Segundo Harden (2017 p. 6), os catálogos de biblioteca possuem três funções: 1) atuar
como um inventário do que o acervo possui; 2) fornecer uma ‘chave’ para descoberta e acesso a
um determinado recurso; e 3) estabelecer uma fonte que fornece informações diretamente.
Na rotina de trabalho em uma biblioteca de música erudita, é muito comum ver e ouvir os
termos catálogo e catalogação, tanto em publicações científicas como na conversa corriqueira de
alunos e pesquisadores, o que nos levou a pensar se tais expressões têm sido utilizadas de modo
indiscriminado. Isso nos remeteu a algumas questões, que se transformaram em problemas de
pesquisa: o que os profissionais da Música querem dizer com a palavra catalogação? Quais
ferramentas, processos e produtos estão envolvidos na criação de catálogos musicais? Utiliza-se o
conhecimento da área da Ciência da Informação? Em caso afirmativo, quais são esses
conhecimentos e quais seus autores? Partindo dessa problemática, esta pesquisa tem como objetivo
fazer uma exploração inicial para levantar pontos de contato existentes e/ou potenciais da
catalogação na Música e na Biblioteconomia, como forma de embasar hipóteses para futuras
pesquisas. Assim, observar-se o processo de descrição de dados de recursos bibliográficos
musicais, tendo como ponto de partida um termo comum entre Biblioteconomia e Música:
catalogação.
Antes de prosseguir, é importante elucidar que esta pesquisa utiliza a palavra catalogação
por ser a expressão mais conhecida fora do domínio da Ciência da Informação (CI) quando se trata
de descrever registros do conhecimento e também segue a concepção de Ortega (2011, p. 45),
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segundo a qual esse termo indica “[...] a área que se ocupa dos princípios e métodos de produção
de bases de dados bibliográficas (termo mais amplo que catálogos de bibliotecas) [...]”. Dessa
forma, não nos prendemos à representação descritiva unicamente, mas a todo o processo de
Organização da Informação (OI), que também engloba a representação temática.
Como metodologia, empregamos a Bibliometria para a identificação do perfil das
dissertações e teses publicadas no Brasil entre 2001 e 2022, a fim de realizar uma exploração
inicial que dasuporte a futuras pesquisas para a identificação do quadro teórico dos trabalhos do
domínio da Música no país que se debruçam sobre a catalogação e de suas frentes de pesquisa.
Também utilizamos a Análise de Conteúdo para propor uma categorização inicial do corpus.
Quando se fala em interdisciplinaridade, preconiza-se, no mínimo, uma influência mútua.
A CI foi buscar na Música referenciais teóricos e práticos para o tratamento de acervos musicais,
mas uma real interdisciplinaridade exige, também, a via da contribuição:
Compreende-se que, decorrente de sua insuficiente maturidade disciplinar, a
produção científica interdisciplinar na Ciência da Informação é, por vezes,
construída de forma unidimensional, podendo ser realizada, muitas vezes, a partir
de apropriações ou análises ligeiras, sem considerar a contribuição que esta tem
dado às disciplinas com as quais pretensamente constrói relações
interdisciplinares e, mais grave ainda, as efetivas contribuições destas no seu
processo de consolidação epistemológica. (Souza 2011 p. 20)
São mais comuns pesquisas que observam como os diversos domínios se manifestam no
campo da Ciência da Informação do que sua influência. Portanto, este trabalho se debruça a
explorar, de forma inédita, como e se a CI tem se manifestado na Musicologia. Pretende-se, assim,
lançar um novo olhar sobre a contribuição epistemológica da CI, tendo como ponto de
convergência o núcleo duro da Biblioteconomia: a Organização da Informação.
Ressalta-se que os resultados obtidos nesta pesquisa, per se, não permitem mensurar ou
caracterizar a interdisciplinaridade entre a Musicologia e a Ciência da Informação, mas servirão
de guia para futuras investigações que se guiarão por esse objetivo.
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2 Referencial teórico
Os catálogos de biblioteca, assim como a própria Biblioteconomia, foram construídos sob
a égide da interdisciplinaridade. A representação descritiva, durante séculos de história, recebeu
influências de livreiros, como Andrew Maunsell, advogados como Paul Otlet e Henry de La
Fontaine, matemáticos como Shiyali Ramamrita Ranganathan, zoólogos como Conrad Gessner,
sem mencionar os religiosos dos monastérios que organizaram suas coleções seguindo princípios
próprios (Ortega 2011; Harden 2017; Ferraz 1991). A representação temática também foi buscar
teorias e métodos na Linguística, Terminologia, Lógica, entre outros, para embasar a elaboração
de linguagens documentais, critérios de indexação e de recuperação da informação (Kobashi
2019).
Para se tornar tal como a conhecemos atualmente, a catalogação percorreu um caminho de
muitas transformações práticas e teóricas, sempre influenciadas pelo contexto histórico, social e
científico da história da humanidade.
Os primeiros catálogos surgiram com as primeiras bibliotecas, que acima de tudo
funcionaram como museus de livros por cerca de 2000 anos. Seus catálogos eram,
então, simples relações ou inventários das obras existentes em seus acervos.
(Ferraz 1991 p. 92)
As fichas catalográficas foram criadas na França no século XVIII no contexto pós
Revolução Francesa, os catálogos em formato de livro impresso se popularizaram no século
XIX, apesar da coexistência com fichas e catálogos de livros manuscritos ou de maços (Harden
2017). O final do século XX viu nascer o catálogo on-line, o qual, atualmente, “[...] está prestes a
se transformar em uma entidade amigável à Web, com funções bastante diferentes de seus
predecessores imediatos” (Harden 2017 p. 8, tradução nossa).
Foi a partir do século XVIII que a catalogação começou a se preocupar com a recuperação
da informação, sob a influência do desenvolvimento da ciência na Europa à época (Ortega 2011),
voltando suas atenções às necessidades de localizar não somente dados descritivos dos recursos,
mas também às demandas dos usuários.
A partir da segunda metade do século XIX, diferenças de orientação pragmática e
epistemológica fizeram surgir novas abordagens de pesquisa e prática voltadas à representação
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temática, como a catalogação de assunto, de matriz norte-americana e embasada na ordenação
alfabética, a indexação, de origem inglesa e focada no binômio documento-usuário e no apoio à
pesquisa, e a análise documental, proveniente da França e voltada a questões procedimentais de
identificação do conteúdo das obras (Guimarães 2009). Entretanto, apesar do recorte especializado
no tratamento temático, tais abordagens ainda fazem parte de um processo maior conhecido como
Organização da Informação (OI).
Foi a partir do século XIX que a catalogação compartilhada ganhou vez, com catalogadores
trabalhando em um lugar, o que exigia um conjunto de regras que garantissem o mínimo de
uniformidade (Harden 2017), com destaque para as 91 regras de Antonio Panizzi, segundo o qual
o catálogo deve ser visto como um todo e enfoque na obra e não no objeto livro em si, ressaltando
a necessidade de revelar detalhes do que hoje concebemos como expressões, manifestações e itens,
inclusive relacionando-os (Ferraz 1991).
Um pouco mais tarde, mais especificamente em 1961, foi estabelecida a Declaração de
Princípios Internacionais de Catalogação, ou Princípios de Paris, o que trouxe medidas para a
internacionalização dos fundamentos da catalogação, inclusive com diretrizes quanto a funções e
a estrutura de códigos de catalogação (Machado e Zafalon 2019).
No mesmo período, o Machine Readable Cataloging (MARC), sob a liderança de Henriette
Avram, foi criado para ser um formato de transmissão de dados entre bibliotecas, os quais podiam
ser impressos como catálogos de livros, listas de referências ou fichas. Somente nos anos 1970
surgiu a noção de MARC como um formato de recuperação (Harden 2017).
Os anos 1960 e 1970 ainda viram o surgimento e o crescimento de instituições, comissões,
conferências e ferramentas, como International Federation of Library Associations and
Institutions (IFLA), International Standard Bibliographic Description-Monographies - ISBD(M),
o Anglo American Cataloguing Rules (AACR) etc., os quais abriram debates mais intensos sobre
os princípios de catalogação a partir dos anos 1990, abrindo espaço para um modelo conceitual
que define requisitos funcionais para registros bibliográficos, o Functional Requirements for
Bibliographic Records (FRBR) (Ortega 2011), e posteriormente os Functional Requirements for
Authority Data (FRAD) e os Functional Requirements for Subject Authority Data (FRSAD), bases
para criação das novas diretivas de catalogação: o Resource Description and Access (RDA), o qual
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pretende ser um padrão para descrição que abrange todas as mídias e a diversidade de comunidades
de salvaguarda do patrimônio cultural (Machado e Zafalon 2019).
Hoje, muita catalogação vai para bancos de dados mantidos em comum por
milhares de bibliotecas. Em teoria, a catalogação produzida em uma biblioteca
pode ser utilizada em qualquer outra biblioteca da face do planeta. Para que esse
cenário funcione, um núcleo comum de regras ou diretrizes deve estar em vigor.
(Harden 2017 p. 6, tradução nossa)
Se, por um lado a formação de uma comunidade especializada em estudar e normalizar a
descrição bibliográfica apresenta oportunidades de trazer soluções para a representação do
universo bibliográfico, por outro lado, pode criar uma linguagem de especialidade tão
idiossincrática que chega a ser incompreensível a outros domínios do conhecimento.
No início do século XXI constata-se que o conhecimento científico está, no seu
processo de desenvolvimento, cada vez mais subdividido em setores numerosos
e especializados. Evidencia-se que cada segmento da pesquisa científica perdeu
a capacidade de se comunicar com o exterior e adotou uma linguagem que, muitas
vezes e ainda, apenas é compreensível a seus colegas especialistas mais próximos.
(Teixeira 2004)
Teixeira (2004) explica que a integração disciplinar é preocupação antiga do Ocidente
desde os sofistas e que, na atualidade, por razões de ordem prática, epistemológicas, éticas,
econômicas etc. têm levado os cientistas a extrapolarem as fronteiras de sua especialidade rumo à
interdisciplinaridade. Entretanto, em um campo científico como a Ciência da Informação, não
houve a criação de um arcabouço teórico-metodológico preliminar para posterior busca fora de
seu domínio, e sim uma gênese de integração entre áreas diversas, assumindo, segundo o autor,
discursos teóricos que dificultam o delineamento de suas fronteiras, o que pode colocar em risco
seu próprio status enquanto disciplina. “O discurso interdisciplinar, nesse sentido, cai no vazio
teórico-metodológico” (Souza 2011 p 22).
Tomando a noção de campo científico de Bourdieu (1983 p. 7), ainda é possível pensar que
a interdisciplinaridade é uma oportunidade de inovar e conquistar novos espaços em áreas
canônicas que já possuem autoridades estabelecidas, uma vez que “existe assim, a cada momento,
uma hierarquia social dos campos científicos − as disciplinas − que orienta fortemente as práticas
e, particularmente, as ‘escolhas’ de ‘vocação’”.
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Para esta pesquisa, partimos do conceito de interdisciplinaridade de Teixeira (2004),
segundo o qual são necessárias ao menos duas disciplinas que compartilhem um discurso
recíproco. Também incorporamos a concepção de Japiassu (1976 p. 32), o qual defende que a
interdisciplinarização não é um simples intercâmbio de dados entre especialidades, de modo a
constituir um “empirismo compósito”, e sim a incorporação de várias disciplinas, “[...] tomando-
lhes de empréstimo esquemas conceituais de análise a fim de fazê-los integrar, depois de havê-los
comparado e julgado”. Sendo assim, a interdisciplinaridade deve corresponder à própria
constituição da ciência, frente à crescente fragmentação do saber, firmando-se como uma reflexão
epistemológica (Japiassu 1976).
A epistemologia da CI se firma sobre o conceito de informação. Sem adentrar em detalhes
sobre a subjetividade desse termo e as diferentes concepções de dados, informação e
conhecimento, podemos afirmar que a informação é transversal, pois perpassa todos os campos do
conhecimento (Pinheiro 2014). Portanto, em qualquer domínio científico, ela é um insumo
essencial, mas é a Ciência da Informação que a toma enquanto objeto de estudo:
Assim, informação, por ser objeto de estudo da Ciência da Informação, permeia
os conceitos e definições da área. E, embora informação não possa ser definida
nem medida, o fenômeno mais amplo que este campo do conhecimento pode
tratar é a geração, transferência ou comunicação e uso da informação, aspectos
contidos na definição de Ciência da Informação. (Pinheiro 2006 p. 2)
Entretanto, quando outra disciplina tem a necessidade de tratar e organizar a informação,
podemos afirmar que ela é ou deveria ser tomada como um objeto de estudo também naquele
domínio. No caso da Musicologia, área abordada neste trabalho, quando se cria um catálogo de
um compositor, por exemplo, o objetivo ao menos tangencia a geração, transferência, comunicação
ou uso da informação musical. Ou seja, de alguma forma, é necessário que essa informação esteja
organizada, de modo a facilitar o acesso, frente à determinada finalidade.
Um olhar mais atento sobre a constituição dos campos científicos da Musicologia e da
Ciência da Informação revela que pode haver mais semelhanças entre eles do que se imaginaria à
primeira vista.
Segundo Demore e Magalhães-Castro (2020 p. 46), “A Musicologia surgiu como ciência
sem possuir um método próprio” à semelhança da Ciência da Informação em um contexto