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ROCHA, Acrisonelia Medeiros de Sousa; SANTOS, Raquel do Rosário. Mediação da Leitura Literária por Meio das
Obras Plásticas de Flávio Tavares. Brazilian Journal of Information Science: research trends, vol.17,
publicação contínua, 2023, e023037. DOI: 10.36311/1981-1640.2023.v17.e023037.
MEDIAÇÃO DA LEITURA LITERÁRIA POR MEIO
DAS OBRAS PLÁSTICAS DE FLÁVIO TAVARES
MEDIATION OF LITERARY READING THROUGH THE ARTWORK OF FLÁVIO TAVARES
Acrisonelia Medeiros de Sousa Rocha (1), Raquel do Rosário Santos (2)
(1) Universidade Federal da Bahia - UFBA, Brasil, acrisonelia@gmail.com
(2) quelrosario@gmail.com
Resumo
Objetivo: evidenciar as atividades de mediação da leitura, com base na literatura paraibana, realizadas por
meio das influências nas artes plásticas de Flávio Tavares. Método: esta pesquisa se caracteriza como
descritiva, tendo como método o estudo de caso, sendo investigada a importância do agir mediador de
Flávio Tavares. Como técnicas de coleta de dados foram desenvolvidas a análise das obras de Flávio
Tavares e a realização de uma entrevista junto a esse Artista. Resultado: Flávio Tavares promove a
mediação da leitura literária por meio de suas obras, em um agir representativo que o envolve, como
também os literatos, o seu lugar de pertencimento e os(as) leitores(as). Destaca-se também que Flávio
Tavares se utiliza de sua arte, para realizar uma mediação indireta da leitura, que subsidia reflexões a
respeito das relações sociais, por exemplo, das condições de trabalho de povos sub-representados,
demonstrando um processo de conscientização por parte de si e dos sujeitos leitores. Conclusões: é possível
identificar nas obras de Flávio Tavares sua criatividade e criticidade, contextualizadas em seu lugar de
pertencimento. A mediação da leitura, realizada de maneira consciente, pelo Artista viabiliza aos sujeitos,
inclusive àqueles colocados à margem da sociedade, o acesso e a apropriação dos bens culturais,
favorecendo a inclusão e o desenvolvimento desses sujeitos, como leitores críticos que podem reconhecer
elementos que são simbólicos e representativos de seu povo.
Palavras-chave: Mediação da leitura; Leitura literária; Artes plásticas Flávio Tavares.
Abstract
Objective: to highlight the reading mediation activities, based on Paraíba literature, carried out through
influences in the visual arts of Flávio Tavares. Method: this research is characterized as descriptive, using
the case study method, investigating the importance of Flávio Tavares' mediating action. As data collection
techniques, the analysis of the works of Flávio Tavares and an interview with this Artist were developed.
Result: Flávio Tavares promotes the mediation of literary reading through his works, in a representative
act that involves him, as well as the literati, his place of belonging and the readers. It is also noteworthy
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that Flávio Tavares uses his art to carry out an indirect mediation of reading, which subsidizes reflections
on social relations, for example, the working conditions of underrepresented peoples, demonstrating a
process of awareness on the part of themselves and of the readers. Conclusions: it is possible to identify in
the works of Flávio Tavares his creativity and criticality, contextualized in his place of belonging. The
mediation of reading, carried out consciously by the Artist, enables subjects, including those placed on the
margins of society, access and appropriation of cultural goods, favoring the inclusion and development of
these subjects, as critical readers who can recognize elements that are symbolic and representative of their
people.
Keywords: reading mediation; literary reading; Fine Arts Flávio Tavares.
1 Introdução
As expressões artísticas, a exemplo da pintura, podem ser entendidas como dispositivos
que informam, sendo necessária a leitura desses dispositivos para a interpretação da informação
que se deseja compartilhar. Desse modo, a leitura é um ato essencial para a apropriação da
informação, e essa é uma instância de transformação da vida e da relação do sujeito com o mundo.
Entende-se que tais informações podem ser articuladas pelos agentes mediadores da leitura,
que ao utilizarem repertórios diversificados de informação, proporcionam aos sujeitos a
possibilidade de se apropriarem das linguagens que melhor se adequem e tenham conforto para se
expressar e compartilhar seus saberes. Nesse sentido, a mediação da leitura se articula para apoiar
que os sujeitos, para além de ter acesso, possam se apropriar das informações registradas nos
dispositivos informacionais, como as obras de arte, além de favorecer a produção e o
compartilhamento de conhecimentos, apoiando a relação e o (re)conhecimento dos sujeitos sobre
si e o outro.
O presente artigo apresenta parte dos resultados obtidos na pesquisa realizada no mestrado
em Ciência da Informação, cujo recorte para esta comunicação busca evidenciar as atividades de
mediação da leitura - como base na literatura paraibana - realizadas por meio das influências nas
artes plásticas de Flávio Tavares. A escolha por analisar as narrativas literárias de Flávio Tavares,
que possui mais de 60 anos de carreira, deve-se ao seu reconhecimento nacional e internacional,
atuando de forma a considerar e apresentar traços culturais e identitários do povo paraibano por
meio da literatura e presente em suas obras.
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Quanto à metodologia, a presente pesquisa se caracteriza como descritiva, tendo como
método o estudo de caso, uma vez que se observou a importância do agir mediador de Flávio
Tavares. Como técnicas de coleta de dados, foram desenvolvidas a análise das obras de Flávio
Tavares e a realização de uma entrevista junto a esse Artista. Cumprida essa etapa, os resultados
foram analisados à luz do referencial ancorado, por exemplo, nos estudos de Freire (1981, 1989),
Martins (1988), Almeida Júnior e Bortolin (2007), Bortolin (2010), Cavalcante (2020) e Candido
(2011).
2 Mediação da Leitura Literária para formação do sujeito leitor
O ato de ler pode colaborar para a constituição de sujeitos conscientes, ao favorecer as
percepções da dinâmica sociocultural que envolve os sujeitos e desvendar para o leitor aspectos,
por vezes implícitos, sobre o mundo e sua relação consigo e com o outro. Dessa maneira, é preciso
refletir a respeito do entendimento de Freire (1989) quando ao tratar da alfabetização de adultos
aponta que essa ação é um ato de conhecimento, um ato político e que nesse processo o
‘alfabetizando’ tem o papel de sujeito. Nesse sentido, a leitura e a mediação dessa ação podem ser
entendidas como um ato que favorece a construção de conhecimentos, a interpretação, como
também a interferência dos sujeitos junto ao coletivo, transformando-o ao mesmo tempo em que
se transforma.
Freire (1989, p.13) também destaca a importância da leitura e afirma que
[...] a leitura de mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta
implica na leitura daquele [...] podemos ir mais longe e dizer que a leitura da
palavra não é apenas precedida pela leitura do mundo, mas por uma certa forma
de ‘escrevê-lo’ ou de ‘reescrevê-lo’, quer dizer, de transformá-lo através de nossa
prática consciente.
Com isso, é possível compreender que a leitura está intrinsecamente relacionada com o ato
de transformação consciente do mundo. Nesse sentido, existe uma relação cíclica, em que a leitura
de mundo dá subsídios para que o sujeito possa ‘desvendar’ a leitura das palavras, que por sua vez
se completa favorecendo a relação dele com o mundo e propiciando ao sujeito a oportunidade de
(re)conhecer acontecimentos, (re)escrever o que foi lido e/ou vivido e, ainda, de maneira
consciente, através de suas práticas, modificar o mundo. Portanto, a partir do entendimento da
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percepção apresentada por Freire (1989), a leitura é uma ação em que o sujeito interpreta e se
relaciona com o mundo - mesmo aquele distinto e distante da sua realidade - reconhecendo-se
como parte dele e estando apto a construir relações com esse mundo, por meio do ato de se
expressar e interpretá-lo.
Ainda de acordo com Freire (1981, p.42) “A codificação, mesmo pictórica, é um ‘discurso’
a ser ‘lido’ por quem procura decifrá-la.” Entende-se que o sujeito desenvolve um repertório que
poderá subsidiá-lo na condução de sua forma de expressão, em suas reflexões, em seu direito de
escolha, contribuindo para uma ruptura da cultura de silenciamento, imposta pela classe dominante
e tornando efetiva a postura de busca por condições de liberdade para todos os sujeitos.
É válido destacar também que, ao buscar uma atitude consciente na realização das
atividades mediadoras, os sujeitos envolvidos poderão favorecer o ato de liberdade de expressões,
percepções, ideias, atitudes e escolhas. Essa postura crítica diante do mundo, favorece que os
sujeitos possam (re)conhecer os fatos e as circunstâncias do que acontece ao seu entorno e de que
modo consciente poderá agir para modificá-los. A partir dessa reflexão, entende-se que o
analfabetismo, mais que a impossibilidade de compreender uma dada linguagem, refere-se à
dificuldade que o sujeito expressa ao realizar uma leitura crítica da dinâmica social em que está
inserido, como também das possibilidades de acesso à informação e, por meio dela, de realizar
suas práticas sociais de maneira consciente. Para além dos dispositivos em que a informação é
registrada por meio da linguagem escrita, também existem os diversos dispositivos produzidos por
meio das linguagens artísticas, como a fotografia, a pintura, a dança, o teatro, entre outros, que
também potencializam ações voltadas ao fortalecimento sociocultural, de evocar indícios
memorialísticos e identitários dos sujeitos, que se dá por meio do ato de ler tais dispositivos.
Considerando outros pensamentos apresentados em relação ao ato de ler e tratando sobre a
ampliação da noção de leitura para além do texto escrito, Martins (1988, p.30), considera que “[...]
o ato de ler se refere tanto a algo escrito quanto a outros tipos de expressões do fazer humano [...]”
e ainda argumenta que
[...] a leitura se realiza a partir do diálogo do leitor com o objeto lido - seja escrito,
sonoro, seja um gesto, uma imagem, um acontecimento. Esse diálogo é
referenciado por um tempo e um espaço, uma situação; desenvolvido de acordo
com os desafios e as respostas que o objeto apresenta, em função das expectativas
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e necessidades, do prazer das descobertas e do reconhecimento de vivências do
leitor. (Martins, 1988, p.33).
Considerando-se o pensamento da autora, é possível dizer que o ato de ler pode ocorrer em
circunstâncias diversas, a partir de diferentes dispositivos informacionais, como a fotografia, a
pintura, a música, a poesia, entre outros, mesmo com a inexistência de palavras, considerando o
interesse do sujeito leitor em decodificar, analisar e interpretar o dispositivo que é repleto de valor
simbólico e informacional. Ao favorecer o processo de desenvolvimento desse leitor, no que tange
à possibilidade de alcançar novas sensações, sentimentos e percepções das suas relações com o
outro, a leitura é uma ação imprescindível para a construção do conhecimento.
No campo da Ciência da Informação, Almeida Júnior e Bortolin (2007, p.3) defendem que
o leitor é tão responsável pelo texto quanto quem o escreve e que “[...] cabe ao leitor ter a iniciativa
de promover encontros ‘cruzando’ os textos que habitam o seu interior com aqueles existentes ao
seu redor [...]” Desse modo, de acordo com o entendimento dos autores, para ocorrer uma leitura
efetiva, é necessário que exista uma relação estreita entre leitor e o texto, promovendo a realização
de interpretações de maneira conectadas tanto com o mundo ao qual ele esteja inserido quanto com
o seu mundo interior, assim, indicando a necessidade da atuação mediadora. Ainda segundo
Almeida Júnior e Bortolin (2007) o mediador é um leitor e a partir do seu gosto pela leitura é
possível considerar sua subjetividade no ato de mediar a leitura, para tanto, compreende-se que o
faça sem imposição, favorecendo a relação dos demais leitores com os dispositivos utilizados.
Sousa, Santos e Jesus (2020, p. 18) tomando como base o conceito defendido por Almeida
Júnior (2009), refletem que mediação da leitura é:
[...] uma ação realizada conscientemente por um profissional da educação, da
informação e/ou da cultura, de maneira individual ou coletiva, que propicie uma
leitura singular ou plural na ambiência dos dispositivos informacionais, sociais e
culturais, na perspectiva de possibilitar a apropriação da informação.
Desse modo, compreende-se que além das categorias destacadas pelas autoras, com base
no conceito de mediação da informação (Almeida Júnior, 2009), sendo atividades individuais ou
coletivas, singulares ou plurais, também se destaca que a mediação da leitura pode ser uma ação
direta ou indireta. Tomando como base as categorias de mediação da informação defendidas por
Almeida Júnior (2009), entende-se que nas atividades de mediação direta da leitura ocorre a
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interação entre o agente mediador e o leitor, de maneira em que a presença física desses sujeitos é
essencial para o desenvolvimento das atividades. Por outro lado, a mediação da leitura também
pode ser realizada por meio de seu ato produtor, quando suas atividades criativas realizam a
mediação, mas sem sua presença física, sendo considerada a mediação indireta da leitura. Assim,
em uma exposição artística, as obras de arte podem ser consideradas uma ação de mediação
indireta da leitura, visto que favorece uma interferência do agente mediador com os sujeitos
leitores, mesmo que esse não esteja fisicamente presente.
Portanto, os diversos dispositivos informacionais podem proporcionar uma aproximação
com os sujeitos, de modo que sua história de vida, a forma de se expressar e se relacionar com o
mundo sejam contemplados nas atividades mediadoras. Dessa maneira, o repertório informacional
que sustenta as atividades mediadoras da leitura deve ser diverso, incluindo os dispositivos
produzidos a partir das artes plásticas. A reflexão apresentada por Pirolo (2011, p. 7) defende a
arte como
[...] uma representação simbólica de um momento, de uma referência, de um
contexto, procura transparecer um ideal, uma idéia, um conteúdo, uma
informação, para quem a observa. Uma obra de arte pode ser apreciada e
compreendida, ser considerada um instrumento para desencadear uma possível
informação em um observador.
A partir do entendimento apresentado pela autora, a obra de arte pode ser compreendida
como um dispositivo informacional. Portanto, seguindo as reflexões aqui apresentadas, o ato de
ler envolvendo a pintura se a partir do repertório que o sujeito leitor adquiriu em suas vivências,
subsidiando a interpretação dos elementos utilizados pelo artista plástico na construção da obra ali
representada. Desse modo, a mediação da leitura por meio da pintura deve ser pautada no
favorecimento, cada vez mais consciente, em tornar o sujeito leitor íntimo das variadas
manifestações artísticas.
Desse modo, entende-se que a partir da pintura os sujeitos podem realizar leituras diversas,
compreendendo elementos de um tempo histórico distinto do seu, o modo com que o produtor
percebe e se relaciona com o mundo, como também aspectos que envolvem a própria produção da
arte, a exemplo, do tipo de material utilizado para a pintura. Nesse sentido, associa-se ao
entendimento defendido por Cavalcante (2020), quando afirma que a partir do ato de ler o sujeito
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exercita a alteridade, e que o ato de ler pode também desenvolver saberes críticos e reflexivos,
subsidiando a construção de conhecimentos. Cada um dos elementos apresentados em uma pintura
são informações que podem ser acionadas/lidas pelo sujeito em contato com a obra. Entretanto,
esse processo de realizar uma leitura mais ampla será possível por meio da interferência do
agente mediador da leitura, que poderá evidenciar a multiplicidade de informações registradas no
documento artístico e favorecer uma leitura crítica sobre o sujeito produtor, o tempo histórico e o
leitor.
Nesse sentido, destaca-se a possibilidade de a pintura refletir traços da literatura, ou seja,
do artista revelar, em suas produções, leituras que ele realizou de dada obra, tomando-a como base
para refletir sobre temas de interesse. Assim, o artista plástico pode desenvolver um processo de
mediação da leitura, quando por meio de sua obra interfere no processo de aproximação do sujeito
com outras expressões, como a literatura.
Seguindo na perspectiva da mediação da leitura, é importante destacar a concepção inerente
à leitura literária, para tanto, evidencia-se a consideração feita por Bortolin (2010), ao tratar da
mediação oral da literatura como sendo uma ação, planejada ou espontânea, promovida pelo
mediador da leitura, com o intuito de aproximar o “leitor-ouvinte” dos textos literários. Embora a
autora apresente duas classificações, a mediação da leitura planejada ou espontânea, entende-se
que a mediação espontânea ocorre no contexto familiar, na atuação de professores e outros sujeitos
que entre as suas intencionalidades desenvolvem a mediação da leitura. Entretanto, nesse contexto
da pesquisa, compreende-se a necessidade de uma mediação planejada, portanto, consciente do
objetivo que se pretende alcançar, que envolva a prática, mas também um arcabouço teórico, que
fundamente a mediação da leitura, favorecendo que o agente mediador, junto aos leitores, alcance
novas percepções, ampliem seus repertórios e estejam atentos às possibilidades decorrentes do ato
de ler.
Nesse sentido, Bortolin (2010) apresenta o que considera mediação oral da literatura, no
contexto das atividades de narração literárias como sendo
[...] narrativas orais de textos diversificados, colagens poéticas, rodas de leitura,
clubes de leitura, montagens de jograis, leituras públicas de textos (em hospitais,
praças, ônibus, restaurantes, rádio e televisão), saraus literários, bate-papo com
escritores, oficinas de produção e leitura de textos, festivais de filmes, entrevistas
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publicação contínua, 2023, e023037. DOI: 10.36311/1981-1640.2023.v17.e023037.
com pioneiros, realização de encontros com repentistas e cordelistas, cantorias,
sessões de piadas, causos, adivinhações, parlendas, trava-línguas etc. (Bortolin,
2010, p. 137-138).
Diante da exposição feita pela autora, das mais variadas possibilidades de se efetuar a
mediação oral da literatura, compreende-se que a ação mediadora pode ser realizada com base nas
narrativas orais e visuais advindas das percepções imagéticas que se dão a partir do acesso aos
mais diversos dispositivos, tomando como exemplo as obras de arte, que podem estar em museus
e galerias de arte, como também nos lugares populares. Desse modo, o agente mediador deve estar
atento para possibilitar que haja uma ruptura para o lugar da informalidade, apoiando que a leitura
literária chegue onde os mais diversos leitores se encontram, a exemplo de shoppings, escolas ou
mesmo nas mídias sociais, como também em equipamentos culturais que estejam localizados nas
periferias e nos centros das cidades, próximos ao grande público, ou seja, com fácil acesso,
possibilitando que as pessoas mais desfavorecidas econômica e socialmente tenham o acesso
viabilizado.
O que não quer dizer que inexista cultura ou literatura própria desse lugar, mas é
interessante que esse encontro entre a diversidade cultural e literária ocorra para que os referidos
sujeitos possam ter uma percepção mais ampliada sobre o seu lugar que o é apenas o lugar da
periferia. Desse modo, a base literária se associa às outras expressões, se apresentam em diversos
dispositivos, podendo tratar de aspectos da literatura, como também se associar aos aspectos
culturais de um dado contexto social e favorecer que as narrativas sejam desenvolvidas no processo
de mediação da leitura.
Destaca-se também o entendimento de Candido (2011), quando defende que toda obra
literária é um objeto construído e que, enquanto construção, possui grande poder humanizador e
favorece a formação de indivíduos mais compreensivos. O autor também apresenta a literatura
como sendo uma necessidade universal para que o indivíduo possa preservar a sua personalidade,
aprimorar os seus sentimentos e a sua forma de ver o mundo, por meio dela ser capaz de “embarcar
em viagens” pelos mais diversos universos, independente que seja por intermédio de poemas,
dramas, lendas, anedotas, modas de viola.
Evidencia-se ainda que, como afirma Candido (2011), para alcançar uma sociedade mais
justa deve-se favorecer o acesso à fruição da arte e da literatura, em diferentes formas. Ratifica-se
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o papel social dos mediadores da leitura ao assumirem o compromisso com essa sociedade mais
justa, ao potencializar que os diferentes dispositivos possam ser acessados, interpretados em seu
contexto histórico, cultural e político, e que as informações materializadas em tais dispositivos
possam ser apropriadas.
Diante do exposto, justifica-se estudos como este que se debruçam sobre a mediação da
leitura que tem como objeto as obras de arte, como dispositivos de leitura e de ressignificação das
práticas socioculturais dos diferentes grupos formadores da sociedade.
3 Metodologia
Esta pesquisa se caracteriza como descritiva, tendo como método o estudo de caso, de
acordo com Antonio Carlos Gil (2010), consiste no aprofundamento exaustivo dos objetos e
permite seu amplo e detalhado conhecimento. Também foi utilizado o método documental, uma
vez que se propôs a mapear narrativas literárias presentes nas pinturas e desenhos de Flávio
Tavares, ou seja, na pesquisa fez uso de fontes informacionais que não receberam tratamento
analítico, pois como julga Antonio Carlos Gil (2010, p. 66)
[...] a pesquisa documental assemelha-se muito à pesquisa bibliográfica. A única
diferença entre ambas está na natureza das fontes. Enquanto a pesquisa
bibliográfica se utiliza fundamentalmente das contribuições dos diversos autores
sobre determinado assunto, a pesquisa documental vale-se de materiais que não
receberam ainda o tratamento analítico, ou que ainda podem ser reelaborados de
acordo com os objetivos da pesquisa.
Nesse sentido, o objetivo deste estudo foi evidenciar as atividades de mediação da leitura,
com base na literatura paraibana, realizadas por meio das influências nas artes plásticas de Flávio
Tavares. Para tanto, as técnicas de coleta de dados utilizadas foram a análise das obras de Flávio
Tavares e a realização de uma entrevista junto a esse Artista, cujo roteiro era composto por
questões que objetivaram evidenciar a percepção de Flávio Tavares quanto a constituição
identitária que permeia a produção de suas obras, como também a sua interferência, como agente
mediador que toma como base a literatura.
Flávio Tavares, com mais de 60 anos de carreira, participou de exposições nacionais e
internacionais. Sua formação identitária, familiar e sociocultural e o seu posicionamento