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MOSTAFA, Solange Puntel; ROCHA, Ednéia Silva Santos. Inteligência Artificial, Inscrições e o Tempo: a filosofia
de Bergson nos debates contemporâneos. Brazilian Journal of Information Science: research trends, vol.17,
Dossiê: Transversalidade e Verticalidade na Ciência da Informação. publicação contínua, 2023, e023032.
DOI: 10.36311/1981-1640.2023.v17.e023032.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, INSCRIÇÕES E O
TEMPO:
a filosofia de Bergson nos debates contemporâneos
Artificial intelligence, subscriptions, and time: Bergson's philosophy in contemporary debates
Solange Puntel Mostafa (1), Ednéia Silva Santos Rocha (2)
(1) Universidade de São Paulo (USP), Brasil, smostafa@terra.com.br,
(2) edneia@usp.br
Resumo
O texto oferece uma abrangente análise da filosofia de Henri Bergson e sua relevância em diversas áreas
do conhecimento. Ele destaca a distinção entre tempo e espaço, enfatizando a importância da duração como
um conceito fundamental para compreender a realidade como um processo contínuo e espontâneo. Ao
discutir a Inteligência Artificial, o texto apresenta três maneiras distintas de nos relacionarmos com o
tempo: a visão humanista, a visão transhumanista e a perspectiva pós-humanista. Além disso, destaca-se a
influência de Bergson no pensamento de Gilles Deleuze, ressaltando a importância da intuição e do tempo
para compreender a realidade. O texto também aborda o papel das bibliotecas como máquinas do tempo,
onde os avanços tecnológicos são aproveitados para melhorar os serviços, mas também surgem espaços de
fuga digital para equilibrar o impacto do mundo digital nas vidas das pessoas. A relação entre Bergson e
Proust é discutida, destacando suas visões distintas sobre a memória e a relação entre tempo e espaço. Outro
ponto mencionado é a importância dos signos imateriais na arte, ressaltando sua capacidade de
desmaterializar os meios e criar um mundo próprio de significados. Em conclusão, o texto enfatiza a
contínua relevância da filosofia de Bergson nos debates contemporâneos, abrangendo campos como a
inteligência artificial, a biblioteconomia e a arte. A compreensão da duração, intuição e tempo é destacada
como fundamental para uma compreensão mais profunda da realidade.
Keywords: Henri Bergson; Ciência da Informação; Filosofia da diferença; Inteligência artificial; Gilles
Deleuze; Avanços tecnológicos.
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MOSTAFA, Solange Puntel; ROCHA, Ednéia Silva Santos. Inteligência Artificial, Inscrições e o Tempo: a filosofia
de Bergson nos debates contemporâneos. Brazilian Journal of Information Science: research trends, vol.17,
Dossiê: Transversalidade e Verticalidade na Ciência da Informação. publicação contínua, 2023, e023032.
DOI: 10.36311/1981-1640.2023.v17.e023032.
Abstract
The text offers a comprehensive analysis of Henri Bergson's philosophy and its relevance in various areas
of knowledge. It highlights the distinction between time and space, emphasizing the importance of duration
as a fundamental concept to comprehend reality as a continuous and spontaneous process. When discussing
Artificial Intelligence, the text presents three distinct ways of relating to time: the humanist view, the
transhumanist view, and the post-humanist perspective. Additionally, it emphasizes Bergson's influence on
Gilles Deleuze's thinking, underscoring the significance of intuition and time in understanding reality. The
text also addresses the role of libraries as time machines, where technological advancements are utilized to
improve services while also creating digital escape spaces to balance the impact of the digital world on
people's lives. The relationship between Bergson and Proust is discussed, highlighting their distinct views
on memory and the relationship between time and space. Another point mentioned is the importance of
immaterial signs in art, emphasizing their capacity to dematerialize the means and create their own world
of meanings. In conclusion, the text emphasizes the ongoing relevance of Bergson's philosophy in
contemporary debates, encompassing fields such as Artificial Intelligence, library science, and art.
Understanding duration, intuition, and time is emphasized as crucial for a deeper comprehension of reality.
Keywords: Henri Bergson; Information Science; Philosophy; Artificial Intelligence; Gilles Deleuze;
Technological Advancements.
1 Introdução
Qual é o filósofo que teria causado o primeiro engarrafamento na Brodway, ao palestrar na
universidade de Columbia, N.Y. em 1913? Tal evento está descrito em uma página de internet
promovida pela Sociedade dos Amigos de Bergson (2017) cujo programa centra-se no
reavivamento de Bergson no século 21.
famoso pelos quatro livros escritos (o terceiro rendendo-lhe o prêmio Nobel de
literatura), a conferência Espiritualidade e Liberdade é proferida por Henri Bergson, filósofo
francês em solo americano. A conferência trataria da espiritualidade fora de qualquer aspecto
religioso e a liberdade também não se referirá ao sujeito autônomo do livre arbítrio, mas à uma
força criadora da duração em que nos constituímos. Os títulos dos poucos livros que escreveu dão
uma ideia geral da problematização bergsoniana. São eles: Ensaios dos dados imediatos da
consciência (1889); Matéria e memória (1896); Evolução criadora (1907) e Duração e
simultaneidade (1905). Dados imediatos da consciência trata da intuição. Se olho esta xícara de
chá e fecho os olhos, ela já está dentro de mim. A intuição é esta coincidência entre a percepção e
a matéria; como observadores, fazemos parte da experiência. A intuição é uma série de atos dentro
da duração, sendo um ato integral, é um método da experiência. A duração, como o próprio nome
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DOI: 10.36311/1981-1640.2023.v17.e023032.
diz, é uma continuidade temporal, algo que se mantém e que muda o tempo todo, que sempre
acrescentada por mais um momento, por mais uma experiência intuitiva. A duração é a nossa
própria consciência, sempre em permanente transformação. Daí que a evolução da vida é sempre
criadora pois somos uma força livre.
O renascimento de Bergson no mundo anglófono deveu muito à tradução, para o inglês, do
ensaio de Gilles Deleuze, de 1966. Os temas originais de Bergson estenderam-se aos fenômenos
pós-coloniais ou à relação entre filosofia e arte, bem como às afinidades entre sua filosofia da
duração e os temas contemporâneos da sociedade de controle. Temas como a filosofia da técnica
e as questões éticas sobre os algoritmos e a robotização das atividades humanas estão também
exigindo novos ensaios filosóficos. A literatura da filosofia da técnica tem apresentado vários
ensaios sobre aspectos éticos, mas a filosofia não é apenas uma ética das ciências ou das técnicas.
É também a invenção de problemas que, mais tarde, Deleuze (2006) traduzirá em sua própria
filosofia, por criação de conceitos.
Assim, várias análises fílmicas no âmbito da Ciência da Informação foram realizadas, nas
quais o conceito de Imagem-tempo em Deleuze provou ser oportuno, a exemplo de Mostafa e
Amorim (2018); conceito esse devedor da concepção de tempo desenvolvida por Bergson. O
mesmo deu-se em relação às imagens fotográficas onde o bergsonismo da Ciência da Informação
foi apresentado através das fotografias-tempo em Mostafa e Manini (2017).
Em todas estas experiências tenta-se mostrar a intuição e seu funcionamento na duração,
este sim, um conceito original de Bergson. Ele notou que a realidade é um fluxo contínuo de
atividade e não um estado estático de coisas. A duração como continuidade sugere que devemos
analisar tudo sob a ótica do tempo - e não do espaço próprio da ciência, mas não da filosofia - e
este tempo pode ser experimentado interiormente. E, intuitivamente, concentrando-nos no que
se passa dentro de nós, em nosso interior, e, ao sermos introspectivos, podemos simpatizar e entrar
em nossa própria duração, bem como em outras durações.
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2 Duração e processo
De maneira geral, podemos dizer que a obsessão de Bergson tem a ver com a distinção
entre tempo e espaço. A ciência, ou o conhecimento objetivo, lida com a espacialização da matéria
ou com tudo que está fora de nós. Os objetos estão sobrepostos, uns ao lado dos outros, seja na
natureza, seja em nossa mesa de jantar. A natureza e a mesa de jantar são exterioridades espaciais.
Bergson interessa-se pelo que se passa em nosso espírito, portanto, em nossa duração, onde tudo
se interpenetra e não há justaposições precisas. A realidade para ele é um processo, uma tendência,
como quando diz:
Essa realidade é a mobilidade. Não existem coisas feitas, mas coisas em
formação. A consciência que temos de nós mesmos em seu fluxo contínuo nos
introduz no interior de uma realidade, a partir da qual devemos representar outras
realidades. Toda realidade, portanto, é tendência. (BERGSON, 1979a p. 65)
O tempo, portanto, não pode ser tratado como uma substância ou algo fixo como a
eternidade dos gregos antigos. Nem pode ser espacializado, como demonstram os paradoxos de
Zenão de Eléia no caso da corrida entre Aquiles e a tartaruga, em que aquele nunca alcança o lento
animal, dado um espaço ou intervalo entre ambos na partida. O filósofo pede atenção à noção de
movimento que não é igual ao espaço percorrido. no movimento uma força vital (espiritual)
que não pode ser atribuída ao espaço. Esta distinção entre tempo e espaço permanece em toda a
obra de Bergson, e cabe ao filósofo analisar as muitas vezes em que o senso comum confunde os
dois aspectos da realidade. Se conseguirmos tratar o tempo não como uma sequência de unidades
discretas, mas como uma continuidade indivisível e talvez até indizível, e se não vermos mais os
objetos como coisas prontas, talvez possamos ver como a realidade realmente é em suas
articulações.
Quando entendemos que a duração é um processo contínuo e espontâneo, levando a sempre
novas criações em sua evolução (nada se repete no espírito pois tudo ali se acumula, num
movimento de contínua renovação - a consciência humana é a acumulação do passado e a
tendência para o futuro), poderemos entender a ordem e a estabilidade nos objetos como
resultado de padrões dentro de fluxos sempre dinâmicos. A ideia bergsoniana de que a realidade é
mobilidade e tendência, isto é, um processo terá muita influência em toda a filosofia continental
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europeia e em todas as ciências e humanidades, como a física quântica e teoria do caos, ambas
rechaçadas pela ciência positivista praticada ainda hoje. Processos não são coisas acabadas e
materializadas: amizades, o clima, férias, uma universidade é mais da ordem do tempo do que do
espaço. Amizades tem seus altos e baixos, o clima é o calcanhar de Aquiles dos meteorólogos em
suas previsões pouco confiáveis, a universidade deixa de sê-lo se mudar de endereço? São questões
mais pertinentes ao tempo, à duração, à intuição.
Há padrões, claro, nos acontecimentos climáticos ou afetivos por exemplo, chove mais no
outono do que no verão, mas não nos fenômenos climáticos ou afetivos, qualidades
permanentes, pois tudo se renova no espírito a cada acontecimento, que a consciência é espírito,
é duração, é tempo contínuo. Significa que se somos duração, nada no espírito se repete pois
estamos permanentemente abertos e acumulando experiências. É bem conhecida a insistência de
Bergson quanto às diferenças de grau entre percepção e matéria (já que a percepção e o percebido
são da mesma natureza, uma vez que percebemos o que nos é útil e de nosso interesse) e as
diferenças de natureza entre as lembranças psicológicas e as lembranças puras. As lembranças
evocáveis (mais próximas do presente) e as lembranças virtuais (nem sempre evocáveis
necessitando de um salto no passado para serem alcançadas). Também sua análise sobre a relação
entre o cérebro (que é matéria) e a memória (que é espírito) na explicação das afasias. Qual é a
relação entre o corpo e a alma?
3 Transversalidade e verticalidade superadas pela conjunção ‘e’
Deleuze (1988) trata a diferença produzida entre as relações em termos ontológicos ao
mobilizar o vocabulário kantiano: “a diferença não é o fenômeno, mas o número mais próximo do
fenômeno” funcionando como um signo. A imagem apresentada por Semetsky (2021 p. 108),
sobre o triângulo sígnico da conjunção ‘e’, demonstra a abertura necessária para superar a divisão
dualista do sensível ou do inteligível, do transversal que é vertical. Se comparado com o
triângulo tradicional do signo que relaciona Sujeito, Objeto e Interpretante, a abertura parece bem
interessante, porque sugere uma rede rizomática e um todo aberto. Vejamos a figura proposta pela
autora: