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SILVA, Carlos Robson Souza; CAVALCANTE, Luciane de Fátima Beckman; ALCARÁ, Adriana Rosecler. A
Educação para a Competência em Informação e a Formação de Multiplicadores no Contexto da Educação
Profissional e Tecnológica. Brazilian Journal of Information Science: research trends, vol. 17, publicação
contínua, 2023, e023004. DOI 10.36311/1981-1640.2023.v17.e023004
A Educação para a Competência em Informação e a
Formação de Multiplicadores no Contexto da Educação
Profissional e Tecnológica
Information literacy education and the continuing education of multipliers in the Vocational Education
and Training Context
Carlos Robson Souza da Silva (1), Luciane de Fátima Beckman Cavalcante (2),
Adriana Rosecler Alcará(3)
(1) Universidade Estadual de Londrina, Brasil, crobsonss@gmail.com
(2) luciane.cavalcante@facc.ufrj.br
(3) adrianaalcara@uel.br
Resumo
Tem como objetivos discutir o conceito de Competência em Informação na Educação Profissional e
Tecnológica, refletir sobre o papel educativo dos multiplicadores de Competência em Informação e apontar
para a possibilidade de uma formação de multiplicadores pensada a partir de um modelo de Competência
em Informação na Educação Profissional e Tecnológica. Trata-se de revisão de literatura, da qual foram
selecionados autores que oferecessem argumentos teóricos para alcançar os objetivos propostos. Conceitua
Competência em Informação na Educação Profissional e Tecnológica e Multiplicadores de Competência
em Informação. Apresenta o Modelo de Competência em Informação na Educação Profissional e
Tecnológica de Silva (2021) e discute a possibilidade de seu uso na formação de multiplicadores. Encerra
apontando para o fato de que o processo de formação continuada facilita aos profissionais da informação a
implementação de ações de Competência em Informação ao mesmo tempo em que compreendem e
apreendem a história, a filosofia e as dinâmicas próprias da Educação Profissional.
Keywords: Competência em Informação. Educação Profissional e Tecnológica. Multiplicadores de
Competência em Informação.
Abstract
It aims to discuss the concept of Information Literacy in Vocational Education and Training, to reflect on
the educational role of Information Literacy multipliers and to point to the possibility of training multipliers
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SILVA, Carlos Robson Souza; CAVALCANTE, Luciane de Fátima Beckman; ALCARÁ, Adriana Rosecler. A
Educação para a Competência em Informação e a Formação de Multiplicadores no Contexto da Educação
Profissional e Tecnológica. Brazilian Journal of Information Science: research trends, vol. 17, publicação
contínua, 2023, e023004. DOI 10.36311/1981-1640.2023.v17.e023004
based on a model of Information Literacy in Vocational Education and Training. The presente article is a
literature review, whose selected authors offered theoretical arguments to achieve the proposed objectives.
Conceptualizes Information Literacy in Vocational Education and Training and Multipliers of Information
Literacy. It presents the Information Literacy in Vocational Education and Training Model by Silva (2021)
and discusses the possibility of its use in the training of multipliers. It ends by pointing to the fact that the
process of continuing education makes it easier for information professionals to implement Information
Literacy actions while at the same time understand and apprehend the history, philosophy and dynamics of
Vocational Education.
Keywords2: Information literacy. Vocational Education and Training. Information literacy multipliers.
1 Introdução
A Competência em Informação tem sido objeto de estudos, reflexões e práticas nas áreas
da Biblioteconomia e da Ciência da Informação desde seu surgimento em meados do século
passado. Entendida como um processo voltado para a formação de habilidades relacionadas ao
acesso, à avaliação e ao uso da informação, a Competência em Informação vem sendo estudada
em uma grande diversidade de contextos educacionais e não educacionais.
As escolas e as universidades, por exemplo, são espaços educativos em que as reflexões e
as práticas de Competência em Informação estão bem mais desenvolvidas, haja vista a proliferação
de padrões e frameworks voltados para o desenvolvimento de habilidades informacionais
adequados às demandas tanto da formação básica como da formação universitária, desde o ensino
infantil aos mais altos níveis de estudos na pós-graduação e ao longo da vida (Cavalcante 2014).
Mais recentemente, outros ambientes educacionais vêm tomando a atenção dos
pesquisadores da temática, como aqueles voltados especificamente para a oferta de cursos e
programas de Educação Profissional e Tecnológica, como os Institutos Federais (Silva 2019), os
Serviços Nacionais de Aprendizagem (Spudeit 2015) e as Escolas Profissionalizantes (Santos
2017). Apesar de se assimilarem e de estarem quase sempre articuladas ao ensino regular básico e
universitário, essas instituições são historicamente diferentes das tradicionais escolas e
universidades por terem como objetivo a especialização na oferta de cursos profissionalizantes,
técnicos e tecnológicos.
O deslocamento do olhar para a realidade da Educação Profissional e Tecnológica, além
de permitir a criação de modelos e experiências de Competência em Informação na formação de
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contínua, 2023, e023004. DOI 10.36311/1981-1640.2023.v17.e023004
trabalhadores, traz também à luz a necessidade de se pensar a formação dos profissionais da
informação envolvidos no planejamento e implementação de tais modelos e experiências. Tais
profissionais precisam atuar tendo consciência sobre a singularidade de seus espaços de atuação e
dos objetivos das instituições às quais estão vinculados.
É interessante, dessa forma, que haja na formação desses profissionais a possibilidades de
se discutir conceitos, metodologias e experiências sobre as dinâmicas informacionais da própria
Educação Profissional e Tecnológica. Nesse sentido, o presente artigo questiona de que maneira
pode se dar a formação de profissionais da informação para atuar no processo de implementação
da Competência em Informação no contexto da Educação Profissional e Tecnológica?
O presente artigo tem como objetivos: a) discutir o conceito de Competência em
Informação na Educação Profissional e Tecnológica; b) refletir sobre os multiplicadores de
Competência em Informação como educadores; e c) apontar para a possibilidade de uma formação
pensada a partir de um modelo proposto por Silva (2021).
Para efetivar as discussões aqui pretendidas, realizou-se um levantamento na literatura
nacional e internacional, utilizando-se de termos como “Competência em Informação”,
Information Literacy”, Alfabetización Informacional”, “Educação Profissional e Tecnológica”,
Vocational Education and Training”, Educación Profesional nas bases de dados Google
Scholar e BRAPCI. Incluiu-se artigos e livros científicos, relatórios técnicos, trabalhos acadêmicos
e documentos oficiais que versassem sobre os temas aqui discutidos, prevalecendo textos sobre
Competência em Informação posteriores a 1974 (ano em que o termo foi mencionado pela primeira
vez por Paul Zurkowski) e textos sobre Educação Profissional e Tecnológica posteriores a 1988
(ano em que foi promulgada a atual Constituição Federal do Brasil).
2 O contexto da Educação Profissional e Tecnológica no Brasil
A educação é uma atividade social que remonta à origem da humanidade. Estando
inicialmente atrelada diretamente à produção da vida material, ela foi se desenvolvendo e se
diversificando de acordo com as transformações sociais, econômicas e políticas de cada contexto
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em que está inserida. Atualmente, a Educação é entendida como um direito universal e é objeto de
estudos, práticas e discussões políticas ao redor do mundo.
No Brasil, a Educação é legislada através da Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996, a
Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). A LDB tem como objetivo estabelecer
as diretrizes e bases da educação nacional, reconhecendo que, “a educação abrange os processos
formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas
instituições de ensino e de pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e
nas manifestações culturais” (Brasil 1996).
Dentre a diversidade de manifestações da Educação Nacional, a LDB fala sobre a Educação
Profissional e Tecnológica, uma modalidade de ensino articulada à educação regular destinada à
formação para o trabalho. De acordo com a Resolução n. 1 CNE/CP de 1 de janeiro de 2021, a
Educação Profissional e Tecnológica é uma
modalidade educacional que perpassa todos os níveis da educação nacional,
integrada às demais modalidades de educação e às dimensões do trabalho, da
ciência, da cultura e da tecnologia, organizada por eixos tecnológicos, em
consonância com a estrutura sócio-ocupacional do trabalho e as exigências da
formação profissional nos diferentes níveis de desenvolvimento, observadas as leis
e normas vigentes (Brasil 2021).
Ou seja, é uma modalidade educacional que tende a estar atrelada às dinâmicas sociais e
econômicas da região onde é ofertada, respeitando as exigências de cada habilitação profissional
reconhecida oficialmente e pautada pelas demandas profissionais, técnicas e tecnológicas geradas
pelo próprio desenvolvimento técnico-científico nas áreas em que os eixos tecnológicos estão
inseridos.
Ela pode ser ofertada tanto através de cursos de Qualificação Profissional (ou Formação
Inicial e Continuada), de cursos de Educação Profissional Técnica de Nível Médio e de cursos e
programas de Educação Profissional Tecnológica de Graduação e Pós-graduação, estando presente
em redes e instituições de ensino públicas e privadas, principalmente nas Instituições
Especializadas em Educação Profissional e Tecnológica (IEPTs). Exemplos dessas instituições são
os Institutos Federais, os Serviços Nacionais de Aprendizagem e as Escolas Profissionalizantes
Públicas e Privadas.
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As IEPTs se diferenciam das tradicionais escolas e universidades não apenas por seus
objetivos e cursos ofertados, mas pela sua história. Considerada inicialmente voltada para “os
pobres e desvalidos da sorte”, a Educação Profissional e Tecnológica sempre esteve atrelada a um
discurso de formação imediata e terminal destinada à classe trabalhadora e orientada aos interesses
do mercado de trabalho, com o objetivo “[…] de atender àqueles que não tinham condições sociais
satisfatórias, para que não continuassem a praticar ações que estavam na contra-ordem dos bons
costumes” (Moura 2007 p. 5).
As discussões sobre o papel e os objetivos dessas instituições, porém, não deixaram de se
desenvolver, sendo espaços de contradições, originadas por projetos distintos e compreensões
distintas sobre o que é a formação de trabalhadores. É nessa disputa que surge uma proposta de
Educação Profissional que busca não a formação meramente prática dos sujeitos atrelada a uma
lógica de mercado, mas sim uma formação que seja integral e que atinja todas as dimensões da
vida. Essa proposta, chamada de Formação Humana Integral, entende que formar
profissionalmente
[…] não é preparar exclusivamente para o exercício do trabalho, mas é
proporcionar a compreensão das dinâmicas sócio-produtiva (sic) das sociedades
modernas, com as suas conquistas e os seus revezes, e também habilitar as pessoas
para o exercício autônomo e crítico de profissões, sem nunca se esgotar a elas
(Brasil 2007 p. 45).
A partir dessa proposta, a habilitação profissional ligada diretamente aos setores produtivos
da sociedade ainda permanece como um dos objetivos da Educação Profissional e Tecnológica,
mas passa a ser acompanhada de uma compreensão que tal habilitação tem em vista uma formação
integral, em que dimensões da vida como o trabalho, a cultura, a ciência e a tecnologia passam a
ser indissociadas do currículo.
O objetivo, portanto, é superar uma ideia de Educação Profissional e Tecnológica
considerada alienante, voltada apenas para a instrumentação da classe trabalhadora e para a criação
de força de trabalho qualificada segundo as demandas do mercado de trabalho. A partir da
Formação Humana Integral, a classe trabalhadora passa a ter a possibilidade de desenvolver todas
as suas potencialidades, apropriando-se delas e as mobilizando em benefício da sociedade e assim
se transformando
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[...] em dirigentes de si próprios, como seres sociais e sujeitos coletivos. É claro,
então, que a educação dos trabalhadores deve possibilitar a maximização de suas
competências e a ampliação de suas consciências. o no sentido de adaptá-lo à
realidade dada, mas para serem sujeitos de transformação no sentido da
emancipação plena do ser humano, ainda que no horizonte isso se constitua como
uma utopia (Ramos 2006 p. 25).
A Educação Profissional e Tecnológica estaria, dessa forma, atrelada à emancipação plena
dos sujeitos, ao mesmo tempo que maximiza e potencializa seus conhecimentos. Nesse sentido,
ela compreenderia todas as dimensões da vida no processo educativo, questionando e se
apropriando das dinâmicas socioprodutivas e seus efeitos nas relações sociais e de trabalho.
3 Competência em Informação na Educação Profissional e Tecnológica
Se a proposta da Formação Humana Integral é superar uma Educação Profissional voltada
apenas ao fazer operacional, propondo uma formação que englobe todas as dimensões da vida ao
mesmo tempo em que habilita os estudantes a exercer uma profissão reconhecida, é importante se
pensar sobre como essa formação pode incorporar discussões sobre temáticas e questões atuais,
principalmente aquelas relacionadas à informação.
O tão discutido advento das tecnologias da informação e da comunicação (TIC) e da
chamada Sociedade da Informação provocaram e ainda estão provocando efeitos drásticos e
irreversíveis sobre o mundo do trabalho. O capitalismo, enquanto sistema de produção
hegemônica, tem se apropriado das tecnologias extinguindo empregos por meio da automação e
fazendo com que a classe trabalhadora tenha que se adaptar às TICcom a ameaça de não estar apto
a ser selecionado para atuar no mundo de trabalho (Antunes 2020). Ser um trabalhador flexível
também passou a estar atrelado a ideia de ser um trabalhador que tem habilidade de se adaptar às
mudanças informacionais.
Paul Zurkowski em meados dos anos 70 formalizou essa ideia com a proposição do
conceito de information literacy” que no Brasil ficou mais conhecido como Competência em
Informação. Para ele,
Pessoas qualificadas na aplicação de fontes de informação em seu trabalho podem
ser chamadas de competentes em informação. Elas aprenderam técnicas e
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Educação para a Competência em Informação e a Formação de Multiplicadores no Contexto da Educação
Profissional e Tecnológica. Brazilian Journal of Information Science: research trends, vol. 17, publicação
contínua, 2023, e023004. DOI 10.36311/1981-1640.2023.v17.e023004
desenvolveram habilidades para utilizar uma grande quantidade de ferramentas
informacionais assim como de fontes primárias na criação de soluções
informacionais para seus problemas (Zurkowski 1974 p. 5, tradução nossa).
A Competência em Informação surge assim como mais um conjunto de habilidades que os
indivíduos devem desenvolver para possuir melhor performance de atuação no mundo do trabalho,
sendo mais aptos a tomar decisões baseadas em informação. Discurso esse que pode encontrar
ecos em declarações e relatórios produzidos no contexto da Biblioteconomia e da Ciência da
Informação.
O Relatório Final do Comitê Presidencial sobre Competência em Informação da
Associação Americana de Bibliotecas indicava, no final da década de 1980, que as escolas e
universidades deveriam ter o papel de “[…] integrar o conceito de competência em informação em
seus programas de ensino e assumir o papel de liderança ao qualificar indivíduos e instituições a
aproveitar as oportunidades inerentes à sociedade da informação” (American Library Association
1989 sem paginação tradução nossa).
Entretanto, é interessante observar que apesar das influências das dinâmicas capitalistas
contemporâneas, a Competência em Informação, assim como a Educação Profissional e
Tecnológica,