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ZANON, Juliano; BEDIN, Jéssica; SENA, Priscila Machado Borges. Ações das bibliotecas universitárias de Santa
Catarina para o combate à desinformação. Brazilian Journal of Information Science: research trends,
vol.17, publicação contínua 2023, e023011. DOI: 10.36311/1981-1640.2023.v17.e023011.
Ações das bibliotecas universirias de Santa Catarina
para o combate à desinformação
Actions by university libraries in Santa Catarina to combat misinformation
Juliano Zanon (1), Jéssica Bedin (2), Priscila Machado Borges Sena (3)
(1) Universidade Comunitária da Região de Chapecó, Brasil,
julianozanon@unochapeco.edu.br.
(2) jessicabedin@unochapeco.edu.br,
(3) Universidade Federal de São Carlos, Brasil, priscilasena.pesquisa@gmail.com
Resumo
A pesquisa apresentada teve como objetivo verificar ações de combate à desinformação desenvolvidas
nas bibliotecas universitárias de Santa Catarina pertencentes às instituições vinculadas à Associação
Catarinense das Fundações Educacionais (ACAFE). Além disso, conceitua-se desinformação e
identifica-se a presença em ambientes digitais das bibliotecas estudadas. São abordados os conceitos de
informação, desinformação, fake news e pós-verdade. A pesquisa é de natureza descritiva, tendo como
procedimentos metodológicos o levantamento documental e o uso de abordagem qualiquantitativa na
análise dos dados coletados em sites e mídias sociais de 16 (dezesseis) bibliotecas do sistema ACAFE.
Ao analisar duas categorias centrais da investigação: presença das bibliotecas em sites e mídias sociais,
e ações de combate à desinformação desenvolvidas, os principais resultados indicam que existe,
majoritariamente, uma atuação das bibliotecas em espaços virtuais, porém apenas uma pequena parcela
delas desenvolve ações de combate à desinformação. Os dados permitem concluir que a missão das
bibliotecas universitárias na mediação da informação deve ser fortalecida e incentivada, para que elas
possam atuar principalmente no combate à desinformação e ocupar os espaços virtuais para melhor
atender às demandas dos usuários.
Keywords: Desinformação; Mediação informacional; Bibliotecas universitárias; Bibliotecário.
Abstract
The presented research aimed to verify actions to combat misinformation developed in university
libraries in Santa Catarina belonging to institutions linked to the Catarinense Association of Educational
Foundations (ACAFE). Furthermore, it is conceptualized misinformation and its presence in digital
environments of the libraries studied is identified. The concepts of information, disinformation, fake
news, and post-truth are approached. The research is of a basic and descriptive nature, having as
methodological procedures the documental survey and the use of a qualitative approach in the analysis
of the data collected from sites and social medias of 16 (sixteen) libraries of the ACAFE system. By
analyzing two central categories of the research: the presence of libraries on websites and social
networks, and actions taken to combat misinformation, the main results indicate that most libraries are
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active in virtual spaces, but only a small portion of them take actions to combat misinformation. The
data allow us to conclude that the mission of university libraries in the mediation of information must
be strengthened and encouraged so that they may act mainly in combating misinformation and occupy
virtual spaces to better meet the demands of users.
Keywords: Disinformation; Information mediation; University libraries; Librarian.
1 Introdução
Vive-se em uma sociedade informacional caracterizada pela grande quantidade de
informações disponíveis em meios digitais, disseminadas por crescentes meios de
comunicações cada vez mais tecnológicos e acessíveis. No entanto, os avanços tecnológicos e
a democratização dos meios digitais também permitiram a circulação de informações
distorcidas, incompletas, manipuladas e falsas, levando à necessidade de realizar-se estudos
sobre desinformação, fake news e pós-verdade. Como define Brito (2015 p. 51), “desinformação
consiste fundamentalmente em informações falsas, distorcidas ou enganosas [...]. Pode ser
traduzida, portanto, como o uso de mentiras com o propósito de iludir ou falsear”.
Como um relevante equipamento de combate à desinformação, as bibliotecas
universitárias são unidades de informação com importância significativa para toda sociedade,
pois têm a missão de orientar e educar, apoiando o ensino, a pesquisa e a extensão, cumprindo
com os objetivos propostos pelas instituições a que estão vinculadas. De acordo com Silva
(2006), as bibliotecas universitárias realizam a mediação entre a informação e o usuário,
facilitando o acesso, recuperação e transferência da informação para toda comunidade
universitária, bem como proporcionam auxílio no desenvolvimento científico, tecnológico e
cultural, além de fornecer infraestrutura bibliográfica, documentária e informacional para as
atividades das universidades, na efetivação dos objetivos das instituições a que estão ligadas.
As bibliotecas universitárias são, portanto, locais de conscientização e formação de
acadêmicos e da comunidade por elas abrangidas, e não apenas como agente de custódia e
guarda de materiais, mas também cabendo a elas a missão de identificar e disseminar
informações e conhecimentos, e combater a desinformação, por meio da mediação
informacional. Nesse cenário de enorme contingente de desinformação sendo produzida e
compartilhada entre a comunidade acadêmica e aquelas conectadas a ela, percebe-se a
necessidade de responder à questão: Como as bibliotecas universitárias vem atuando no
combate à desinformação?
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A fim de responder ao questionamento anterior, estabeleceu-se como objetivo geral,
verificar ações de combate à desinformação desenvolvidas nas bibliotecas universitárias de
Santa Catarina, a partir da identificação da presença em meio digital das bibliotecas
universitárias de Santa Catarina e; listagem das ações de combate à desinformação
desenvolvidas pelas bibliotecas universitárias do Estado.
Posto isso, a pesquisa torna-se relevante ao analisar o contexto das bibliotecas
universitárias de Santa Catarina e sua tarefa de preparar profissionais atentos ao contexto
informacional no qual atuam e nas consequências negativas da desinformação no
desenvolvimento da pós-verdade e no poder destrutivo que podem desencadear socialmente,
afetando diversos setores da sociedade. A escolha por Santa Catarina se justifica pela atuação
dos autores no Estado e pelo interesse em contribuir com o desenvolvimento da
Biblioteconomia catarinense.
2 Referencial teórico
Para analisar os dados coletados com vistas na concretização do objetivo estabelecido
para esta pesquisa, discorre-se nesta seção sobre desinformação, e bibliotecas universitárias e a
mediação informacional.
2.1 Desinformação
A temática da desinformação vem sendo estudada e debatida não apenas pelos
profissionais da Ciência da Informação, a grande área do conhecimento que contempla a
Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia, mas também por jornalistas, juristas, filósofos
etc., gerando diversos conceitos e reflexões sobre o tema.
Estudar e pesquisar este tema é importante, pois como afirma Zattar (2017),
cotidianamente as pessoas precisam recorrer às fontes de informações, seja no trabalho, estudos
ou vida particular, não sendo apenas uma questão de ter disponível o acesso à informação, mas
da informação se apresentar com qualidade, pertinência e fidedignidade nos diversos contextos.
No entanto, o que se observa é uma bolha informacional com desinformações e notícias falsas.
Diversos autores de várias áreas do conhecimento abordam a temática da informação,
gerando uma pluralidade de conceituações pertinentes sobre o tema. Para fins desta
investigação, utilizou-se aqui o conceito de informação de Barreto (1994 p. 2), que afirma ser
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informação “uma estrutura significante com a competência de gerar conhecimento para o
indivíduo e seu grupo”. De acordo com Lancaster (1989 p. 1), “[...] é extremamente difícil
definir informação, e até mesmo obter consenso sobre como deveria ser definida. O fato é,
naturalmente, que informação significa coisas diferentes para pessoas diferentes”.
Demo aponta (2000) que existem inúmeras tentativas de conceituação de desinformação
entendidas como sendo o contrário do ato de informar, pois não atendem o requisito de
veracidade. O autor ainda enfatiza ser primordial a criticidade diante das etapas de controle
informacional, sendo da natureza comunicacional humana a desinformação, pois temos
limitações sensoriais e as utilizamos segundo nossos interesses. Nesse sentido, Salino (2016 p.
53) conceitua o que é desinformação do seguinte modo:
Desinformação é o ato ou efeito de desinformar, isto é, deixar de informar ou
informar erroneamente; falta de informação, informação desvirtuada, fazer com
que algo perca suas propriedades originais com o propósito de enganar. Assim,
as informações podem ser classificadas como imprecisas, enganosas, falsas ou
erradas, o que de forma negativa pode chamar de desinformação.
Na busca por conceituações de desinformação, Pinheiro e Brito (2014) descreveram três
possibilidades: ausência de informação (estado de ignorância e precariedade informacional,
ausência de cultura e de competência informacional, desprovendo-se de informações
adequadas); informação manipulada (processos de alienação da população para manter projetos
de dominação política, ideológica e cultural); e engano proposital (ação proposital para enganar
alguém).
A Comissão Europeia desenvolveu um relatório intitulado, Combater a desinformação
em linha: uma estratégia europeia, por meio do qual:
A desinformação é entendida como informação comprovadamente falsa ou
enganadora que é criada, apresentada e divulgada para obter vantagens
econômicas ou para enganar deliberadamente o público, e que é suscetível de
causar um prejuízo público. O prejuízo público abrange ameaças aos processos
políticos democráticos e aos processos de elaboração de políticas, bem como a
bens públicos, tais como a proteção da saúde dos cidadãos da UE, o ambiente
ou a segurança. A desinformação não abrange erros na comunicação de
informações, sátiras, paródias ou notícias e comentários claramente
identificados como partidários (Comissão Europeia 2018 p. 4).
Os autores Recuero e Soares (2021 p. 6) afirmam que “[...] desinformação é uma
informação falsa propositalmente fabricada ou manipulada para enganar um grande público
para causar dano a algo ou alguém [...]”. Eles oferecem uma classificação dos tipos de
desinformação considerando se a informação sofreu ou não intervenções:
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(1) Informação fabricada Informação completamente falsa, fabricada ou sem
nenhuma evidência como, por exemplo, teorias da conspiração. (2) Informação
com enquadramento enganoso Informações verdadeiras utilizadas para criar
um sentido falso devido à forma como são apresentadas e aos tipos de conexões
que são realizadas a partir delas. Por exemplo, na classificação de Wardle e
Derakshan (2017): falsa conexão, falso contexto, conteúdo enganoso. (3)
Informações manipuladas Informações parcialmente verdadeiras
manipuladas para construir um falso sentido. Por exemplo, imagens verdadeiras
manipuladas de modo a acrescentar ou retirar uma informação essencial.
(Recuero e Soares 2021 p. 7)
Seguindo o pensamento anterior sobre a intencionalidade de enganar para obter
vantagens ou resultados específicos, Coutant (2020) afirma:
[...] desinformação, uma técnica de manipulação da opinião pública no intuito
de divulgar informações falsas; verdadeiras, mas truncadas; ou verdadeiras,
mas com adição de complementos cujo objetivo é passar uma imagem errada
da realidade para fins políticos, militares e econômicos. (Coutant 2020 p.20)
A propagação das notícias falsas e suas repercussões evidenciaram expressões como
“pós-verdade”, “desinformação” e fake news”. A propagação de desinformações e suas
repercussões, evidenciaram o termo pós-verdade, que, conforme, apontam Corrêa e Custódio
(2018 p. 199), “dirige-se aos eventos em que a opinião pública e os comportamentos o
orientados mais pelos apelos emocionais, falaciosos ou subjetivos, afirmados pelas suas
convicções pessoais, do que em fatos verídicos e atestados”.
A pós-verdade está relacionada ao indivíduo que opta por disseminar informações não
se guiando pelo senso crítico, buscando apenas satisfazer um desejo emocional ou crença
pessoal. As sociedades em que o fenômeno da pós-verdade está inserido, são espaços nos quais
as desinformações podem manipular e persuadir os indivíduos, como relatam as autoras Tobias
e Côrrea (2019):
Quando as pessoas estão convictas de que algo realmente é verdade e
deparam-se com alguma notícia (verídica ou falsa) que reafirma sua ideologia,
é mais fácil envolver-se com tal postagem e replicá-la, que lhe traz certa
segurança emocional compartilhar algo que acreditam ser verídico. Isso pode
estar relacionado à formação de bolhas sociais, que agregam pessoas e grupos
com opiniões semelhantes, crenças e ideologias parecidas. Muito comuns nos
ambientes de mídias sociais, influenciam em processos efetivos de assimilação
de conhecimento (Tobias e Côrrea 2019 p. 572)
Importante destacar a existência de diversas críticas ao termo fake news, dentre elas a
dos pesquisadores Wardle e Derakhshan na sinopse do Módulo 2, do Manual de Educação e
Capacitação em Jornalismo, publicado pela Unesco, em 2018, que diz:
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Catarina para o combate à desinformação. Brazilian Journal of Information Science: research trends,
vol.17, publicação contínua 2023, e023011. DOI: 10.36311/1981-1640.2023.v17.e023011.
Infelizmente o termo é inerentemente vulnerável a ser politizado e usado como
uma arma contra a indústria de notícias, como uma maneira de enfraquecer os
relatórios que as pessoas no poder não gostam. Em vez disso, recomenda-se
usar os termos informação incorreta e desinformação (Wardle e Derakhshan,
2017 p.47)
Muito embora existam diversas correntes da filosofia e da comunicação que buscam
definir o fenômeno da desinformação, ora afirmando ser uma informação que desinforma, ora
afirmando nem se tratar de uma informação, por não atender ao requisito da veracidade, esse é
um campo de estudo e pesquisa a ser explorado, por sua complexidade e multidisciplinaridade,
pois afeta todos os setores sociais e governamentais.
Esta pesquisa não tem como objetivo aprofundar-se nas discussões existentes a respeito
das terminologias e classificações, optou-se por utilizar a expressão “desinformação” e o
conceito proposto e descrito anteriormente por Recuero e Soares (2021), pois descreve a
desinformação como um fenômeno mais amplo que contempla termos diversos e ainda sem
consenso entre os pesquisadores (notícias falsas, boatos, sátiras etc.), e o próprio fenômeno da
desinformação.
Diversas áreas do conhecimento são afetadas negativamente pelas desinformações,
sobretudo no aspecto da credibilidade e capacidade de superação, como é o caso do jornalismo.
Por isso, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO)
publicou, em 2018, o manual de recomendações aos jornalistas a respeito das fake news, escrito
por Ireton e Posetti, em 2018.
Como apontado pela Revista de Olho na CI (2018), especializada em Pesquisa em
Ciência da Informação e Biblioteconomia:
Escrito por especialistas na luta contra a desinformação, este manual explora a
natureza do jornalismo com módulos sobre por que a confiança é importante;
pensar criticamente sobre como a tecnologia digital e as plataformas sociais são
canais do distúrbio da informação; lutando contra a desinformação e a
desinformação através da alfabetização midiática e informacional; verificação
de fatos; verificação de mídia social e combate ao abuso online.
Ao voltar atenção para o Campo da Biblioteconomia e Ciência da Informação, cita-se a
iniciativa da Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias (IFLA) em
desenvolver a Declaração IFLA sobre notícias falsas de 2018, e o infográfico (Figura 1) sobre
como identificar notícias falsas.