A crítica de Carol Gilligan ao androcentrismo e sexismo
Artigos/Articles
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Revista do Instituto de Políticas Públicas de Marília, v.8, p. 67-86, Edição Especial, 2022.
A
CRÍTICA DE
C
AROL
G
ILLIGAN AO ANDROCENTRISMO E SEXISMO NA
PSICOLOGIA E NA PRODUÇÃO CIENTÍFICA
C
AROL
G
ILLIGAN
S CRITIQUE TO ANDROCENTRISM AND SEXISM IN
PSYCHOLOGY AND SCIENTIFIC PRODUCTION
Matheus Estevão Ferreira da Silva
1
RESUMO:
Trata-se da apresentação de resultados parciais de uma pesquisa concluída financiada pela
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Objetivou-se refletir sobre a
obra de Carol Gilligan no tocante das críticas que teceu às teorias psicológicas do desenvolvimento,
sobretudo da teoria do desenvolvimento moral de Lawrence Kohlberg, argumentando que
conservavam um viés masculinizante. Entrou-se em contato com livros, capítulos de coletâneas e
artigos de autoria de Gilligan que abordam as críticas tecidas pela autora, sendo, o principal desses
materiais bibliográficos, o seu livro Uma voz diferente (In a Different Voice), publicado em 1982.
Ressalta-se que Gilligan
questionou a validade da teoria
de
Kohlberg ao argumentar que as
mulheres se
desenvolvem moralmente diferente dos homens, pois elas se orientariam pelo
que chamou
de Ética do
Cuidado, enquanto eles se orientariam pela Ética da Justiça. As críticas de Gilligan são consideradas
revolucionárias para o campo da Psicologia do Desenvolvimento Moral, além da própria Psicologia
e da Ciência em geral, e com implicações de vanguarda ao pensamento feminista de sua época.
Conclui-se sobre a importância de Gilligan ao modo de se fazer Ciência, quanto à participação nula
das mulheres em dados amostrais e às considerações acerca do desenvolvimento feminino.
PALAVRAS-CHAVE: Carol Gilligan. Androcentrismo. Sexismo. Ética do Cuidado.
Desenvolvimento Moral.
ABSTRACT: This is the presentation of partial results of a completed research funded by the
Foundation for Research Support of the State of São Paulo (FAPESP). The objective was to reflect on
Carol Gilligan’s work in terms of her criticisms of psychological theories of development, especially
Lawrence Kohlberg’s theory of moral development, arguing that they retained a masculinizing bias.
She came into contact with books, chapters from collections and articles authored by Gilligan that
address the criticisms made by the author, the main one of these bibliographical materials being
1
Mestrando em Educação e Pedagogo pela Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC), Universidade Estadual
Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Campus de Marília, e graduando em Psicologia pela Faculdade de
Ciências e Letras (FCL/UNESP), Campus de Assis. Foi bolsista de Iniciação Científica FAPESP em ambas gra-
duações, foi bolsista de Mestrado do CNPq e atualmente é bolsista de Mestrado da FAPESP. E-mail: matheus.
estevao2@hotmail.com
http://doi.org/10.36311/2447-780X.2022.esp.p67
SILVA, M. E. F.
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her book In a Different Voice, published in 1982. It is noteworthy that Gilligan questioned the
validity of Kohlberg’s theory by arguing that women develop morally different from men, as they
would be guided by what he called the Ethics of Care, while they would be guided by the Ethics
of Justice. Gilligan’s critiques are considered revolutionary for the field of Psychology of Moral
Development, in addition to Psychology and Science in general, and with avant-garde implications
for the feminist thought of her time. It concludes about the importance of Gilligan in the way of
doing Science, regarding the null participation of women in sample data and considerations about
female development.
KEYWORDS:
Carol Gilligan. Moral Development. Ethics of Care. Women.
INTRODUÇÃO
Neste artigo, apresentam-se resultados parciais de uma pesquisa
concluída que foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado
de São Paulo (FAPESP)
2
. Essa pesquisa maior teve o objetivo de reunir, mapear
e analisar a produção nacional e internacional de pesquisa em Psicologia do
Desenvolvimento Moral, no período de 1982 a 2019, que tem gênero como
tema.
Uma autora de suma importância para o desenvolvimento dessa
pesquisa foi a psicóloga estadunidense Carol Gilligan (1936-atualmente).
Gilligan ficou conhecida por ter questionado a validade universal da teoria moral
do também psicólogo estadunidense Lawrence Kohlberg (1927-1987) e de outras
psicológicas do desenvolvimento, acusando-as
de serem androcêntricas e
sexistas
3
.
É
importante ressaltar que foi a partir dos estudos e da teoria de Kohlberg (1992) que
o campo da Psicologia interessado pelo estudo da moralidade, a Psicologia do
Desenvolvimento Moral, “consolidou-se como área nobre da Psicologia” (LA
TAILLE, 2007, p. 17; SILVA, 2020; 2021).
No entanto, com base em suas pesquisas, Gilligan (1982) argumentou
haver um caminho de desenvolvimento moral alternativo ao traçado por Kohlberg
(1992) em sua teoria, sendo as mulheres representativas dessa alternativa de
desenvolvimento. Em referência ao que encontrou empiricamente, a autora (1982)
chamou esse outro modo que o desenvolvimento moral pode ocorrer de Ética
do Cuidado, enquanto referiu-se ao modelo de desenvolvimento kohlberguiano
como Ética da Justiça, que para ela seria mais representativo a como os homens se
desenvolvem.
2
A pesquisa intitulou-se O gênero na produção de pesquisa em Psicologia do Desenvolvimento Moral: mapeamento
e análise em
periódicos
internacionais
de língua
inglesa (1982-2018
)
, com vigência
de
01/08/2019 a
29/02/2020
e vinculando-se à FAPESP pelo processo de n.º 2019/08942-1. Disponível em: https://bv.fapesp.br/pt/bol-
sas/187806/o-genero-na-producao-de-pesquisa-em-psicologia-do-desenvolvimento-moral-mapeamento-e-ana-
lise-em-per/. Acesso em: 01 out. 2021.
3
De acordo com Ribeiro e Pátaro (2015), o sexismo é a discriminação baseada nas diferenças entre os gêneros,
nomeadamente de homens e mulheres, enquanto o androcentrismo, por sua vez, reside na base do sexismo, é
um pensamento que “[...] consiste em considerar o homem como centro do universo, único apto a governar, a
determinar leis e a estabelecer justiça” (p. 158) e que leva, portanto, ao sexismo e outras formas de discriminação.
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Assim, na pesquisa concluída, considerou-se que as investigações que
interseccionam gênero e moralidade como tema de pesquisa despontaram no
campo da Psicologia do Desenvolvimento Moral principalmente a partir do que
ficou conhecido como debate Kohlberg-Gilligan (JORGENSEN, 2006; SILVA,
2021), que se refere ao debate travado por ambos autores na defesa de suas
ideias. Passados 40 anos desde seu início, esse debate é considerado como um dos
grandes marcos teóricos do campo e para o estudo da moralidade, impulsionando
a renovação da literatura especializada.
Para este artigo, reservou-se a apresentação dos resultados obtidos
mediante o procedimento de revisão de literatura que constituiu a metodologia
dessa pesquisa.
Logo, como um recorte dessa investigação, objetiva-se
refletir sobre
a obra de Carol Gilligan no tocante das críticas que teceu às teorias psicológicas
do desenvolvimento, sobretudo da teoria do desenvolvimento moral de Lawrence
Kohlberg, que argumentou conservarem um viés masculinizante.
Para tal, entrou-se em contato com livros, capítulos de coletâneas e
artigos de autoria de Gilligan (1977; 1982; 1998; 2015; GILLIGAN; BELENKY,
1980; MURPHY; GILLIGAN, 1980; GILLIGAN; ATTANUCCI, 1988)
que abordam as críticas tecidas pela autora, sendo, o principal desses materiais
bibliográficos, o seu livro Uma voz diferente (In a Different Voice), publicado em
1982.
O texto deste artigo organiza-se da seguinte forma: primeiro, ressaltam-
se aspectos biográficos e suas reverberações em sua obra, revisitando de forma
concisa seus antecedentes e background. Em seguida, apresentam-se as críticas de
Gilligan às teorias psicológicas do desenvolvimento, sobretudo a teoria moral de
Kohlberg, e sua proposição de uma Ética do Cuidado. Em um terceiro
momento, conclui-se ressaltando que as críticas de Gilligan são consideradas
revolucionárias para o campo da Psicologia do Desenvolvimento Moral, além da
própria Psicologia e da Ciência em geral, e que teve implicações de vanguarda ao
pensamento feminista de sua época, ajudando a fundar uma de suas vertentes, o
chamado Feminismo da Diferença. O artigo se encerra com as considerações finais.
ASPECTOS BIOGRÁFICOS E ANTECEDENTES DA AUTORA
Carol Friedman Gilligan é uma professora universitária e psicóloga
estadunidense, hoje aos 84 anos, atualmente professora da Universidade de Nova
Iorque (2002-atualmente), sendo professora aposentada da Universidade de
Harvard (1969-1997), onde conseguiu seu Ph.D. em Psicologia Social em 1964,
e lecionado anteriormente na Universidade de Chicago (1965-1966) até ter sido
contratada em Harvard.
Essa autora tornou-se referência mundial para os estudos do campo da
Psicologia do Desenvolvimento Moral e, por conseguinte, dos Estudos Feministas
SILVA, M. E. F.
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e Estudos de Gênero durante o período da Segunda Onda do Feminismo e
não ficou conhecida nesse período como ditou os seus rumos , quando
publicou resultados de suas próprias pesquisas que realizou nos Estados Unidos
com mulheres, utilizando da teoria kohlberguiana do desenvolvimento moral
e de dilemas morais sobre o aborto (GILLIGAN, 1977; 1982; GILLIGAN;
BELENKY, 1980; MURPHY; GILLIGAN, 1980).
Com o passar dos anos, o trabalho inicial de Gilligan, sua teoria
decorrente dessas primeiras investigações e o modelo de desenvolvimento moral
dela advindo, a Ética do Cuidado, também foram ganhando notoriedade e sendo
reconhecidos por outras áreas do conhecimento, a princípio na Filosofia e no
Direito, para depois na Educação, Enfermagem e outras, assim como em vários
campos da própria Psicologia, como também ressalta Sharpe (1992) sobre essa
repercussão.
Contudo, antes de nos aprofundarmos em seu trabalho de pesquisa,
teoria, modelo de desenvolvimento e, portanto, elucidar porquê Gilligan se
tornou uma referência de tamanha importância, é fundamental debruçar nas
circunstâncias biográficas que antecederam todo esse seu trabalho e
reconhecimento consequente.
Os antecedentes da vida de Gilligan também influenciaram diretamente
nos caminhos dos quais trilharia e, logo, em sua obra. Todo esse background
como ela própria denomina (JORGENSEN, 2006) formaria e implicaria em
seus interesses de pesquisa, em sua abordagem feminista e forma de olhar para a
Psicologia, ao desenvolvimento humano e à questão moral e de gênero.
Para Friedman (2020, p. 671, tradução minha), “é tanto um prazer
como um desafio apresentar Carol Gilligan”. Para ele, “[...] o prazer vem da
oportunidade de falar de alguém que tem sido amiga, um exemplo de intelectual
cuja perspectiva sobre a influência da sociedade sobre o indivíduo tem me
ajudado no trabalho como psicanalista para compreender a importância do
desenvolvimento de meus pacientes, o que ela chamaria de ‘uma voz própria’” (p.
671, tradução minha). Quanto ao desafio que é apresentar Gilligan, o autor
(2020, p. 671, tradução minha, grifos do autor) ressalta que:
[...] surge da dificuldade de apresentar alguém que indubitavelmente é
conhecida por quem conhece a história do Feminismo nos Estados Unidos.
Em 1982, In a different voice: psychological theory and women’s development foi
publicado e com o tempo estabeleceu Carol Gilligan como uma voz importante
em nossa compreensão da Psicologia das mulheres; uma voz com poder muito
convincente para resistir ao poder do saber e dos pronunciamentos psicológicos
convencionais sobre como as mentes das mulheres funcionavam, como as
mentes das mulheres eram inevitavelmente diferentes das mentes dos homens,
que até então eram consideradas superiores em racionalidade em comparação
aos seus pares femininos, mais emocionais.
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Como mencionado na citação acima, o reconhecimento internacional de
Gilligan veio logo após publicar, em 1982, o seu livro In a Different Voice:
psychological theory and women’s development, cujo título foi traduzido ao português
no Brasil (Pt-Br) como Uma voz diferente: psicologia da diferença entre homens e
mulheres da infância à idade adulta (GILLIGAN, 1982).
Porém, antes disso, Gilligan teve de trilhar um longo caminho, cuja
experiência adquirida seria seu referido background e que levaria consigo para
a Psicologia. Quando perguntada sobre “Como e quando você começou a
desenvolver uma identidade feminista?”, em entrevista
4
concedida à Leeat Granek
no ano de 2009, Gilligan (LEEAT; GILLIGAN, 2009, p. 2, tradução minha)
responde que isso retoma muito antes de ter adentrado na Psicologia, logo, antes
da publicação de seu livro supracitado:
[Começou] No início da segunda onda do movimento de mulheres. Eu
participei do Movimento dos Direitos Civis. Eu fiz parte do recenseamento
eleitoral, do Movimento Antiguerra e do movimento para parar os testes
atmosféricos de armas nucleares. Então, em outras palavras, eu estava muito
envolvida em todos os movimentos dos anos de 1960. [...] E o feminismo foi
apenas uma extensão disso.
De origem judaica, Gilligan nasceu em 28 de novembro de 1936,
na cidade de Nova Iorque, Estados Unidos. Frequentou a escola progressista
Walden School e graduou-se pela Swarthmore College em 1958, aos 22 anos,
estudando literatura inglesa, História e Psicologia, e dois anos depois, em 1960,
obteve seu Mestrado em Psicologia Clínica pelo Radcliffe College. Após graduar-
se no final da década de 1950, Gilligan casou-se com James Frederick Gilligan
(1935-atualmente).
Assim, tendo crescido em um ambiente considerado progressista para
a época, e já casada, Gilligan passou a se envolver em importantes movimentos
sociais que eclodiam nos Estados Unidos da cada de 1960. Cabe salientar que
esse é um período da História estadunidense muito marcado pela segregação
racial, pela violência, inclusive policial (portanto, institucional), à população
negra e à diversidade sexual e de gênero. Na entrevista de 2009, a própria Gilligan
(LEEAT; GILLIGAN, 2009, p. 3, tradução minha, grifos meus) rememora esse
período, em que conciliava seu casamento e a maternidade dado o nascimento
de seus primeiros filhos com sua atuação nos movimentos sociais, a carreira de
dançarina moderna que iniciou ao ingressar em uma companhia de dança onde
morava e seu Ph.D. em Psicologia Social em Harvard, como se segue:
4
Essa entrevista faz parte do projeto “História oral das vozes feministas da Psicologia” da Psychology’s Feminist
Voices, um arquivo digital multimídia on-line que contém as histórias de psicólogas feministas. Disponível em:
https://feministvoices.com/files/profiles/pdf/Carol-Gilligan-Oral-History.pdf. Acesso em: 01 out. 2021.
SILVA, M. E. F.
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[...] depois que terminei a Faculdade fomos para Cleveland porque meu marido
entrou para a Faculdade de Medicina lá. Isso deve ter sido em 1962, durante
as midterm elections. Na época ocorria o recenseamento eleitoral que registraria
eleitores afro-americanos para votar. Eu já tinha um filho de dois anos na época,
era
verão, e lembro-me de entrar na área de Hough, em Cleveland, que era ‘o’
bairro
negro da cidade, o gueto. Eu ia para lá de qualquer maneira porque eu era
dançarina
moderna e estava envolvida com uma companhia de dança moderna localizada
em Hough, chamada Karamu House, companhia que era na palavra
usada na
época ‘inter-racial’. [...] Assim, eu estava familiarizada com o bairro
porque essa
companhia de dança estava no meio dele. [...] Eu tinha um filho de dois anos,
era verão, e então coloquei meu filho no carrinho e fui bater de
casa em casa
pelo bairro. Se você fizesse isso com uma criança de dois anos,
você seria bem-
vindo. E eu batia nas casas [...] e as pessoas me convidavam
para entrar. Isso
foi antes de eu fazer qualquer trabalho [de pesquisa]. E eu me
sentava e
conversava com elas sobre a importância de se ter uma voz e, portanto,
a
importância do voto. Foram longas conversas. [...]. Assim me envolvi no
Movimento dos Direitos Civis... Até chegar no feminismo. [...] Então eu estava
fazendo o recenseamento eleitoral, estava dançando nessa companhia de dança
inter-racial, e logo voltaria para a Psicologia [em Harvard].
Em meio a essa conciliação entre vida pública (atuação em movimentos
sociais e carreira de dançarina moderna) e vida privada (casamento e cuidado dos
filhos), conciliação que interrompeu seus estudos na Psicologia por um curto
intervalo de tempo, após ter defendido seu Mestrado em 1960, Gilligan retomou
seus estudos ao ingressar no curso de Doutorado em Harvard.
Como ressalta a autora (LEEAT;