Dossiê Temático: “Revolução e contrarrevolução”

2021-04-19

Equipe Editorial do Dossiê Temático

Paulo Alves de Lima Filho (IBEC); Adilson Marques Gennari (UNESP | IBEC); Fábio Antonio de Campos (UNICAMP | IBEC).

Ementa

Com a queda da União Soviética e a ascensão dos Estados Unidos como solitária potência capitalista mundial - plataforma estatal de um capital financeiro que apresenta transnacionalmente sua dimensão produtiva renovada com a revolução microeletrônica -, a nova ordem que nasce no outono do século XX exigirá a destruição sistemática dos fundamentos da ordem anterior – marcada por revoluções e contrarrevoluções; uma verdadeira revolução capitalista no campo produtivo, mas, igualmente, uma contrarrevolução nos planos socioculturais.

A expressão ideológico-prática desse processo será o neoliberalismo, a exigir a liquidação dos estados nacionais e seu controle sobre o território e fluxos de capital, colocando-os ao serviço exclusivo do punhado de famílias e multinacionais que passarão a governar o mundo.

Essa ideologia transformar-se-á no mantra das burguesias mundiais, em especial das classes proprietárias do mundo neocolonial, aliadas às do centro imperialista na construção dessa nova ordem. Entretanto, no mundo neocolonial, será a desindustrialização a comandar esse processo, aliado a um ainda mais profundo retrocesso sócio histórico, com incremento exponencial da subordinação nacional desses países.

Surpreendentemente, na maioria dos países neocoloniais, será a burguesia e seus estratos superiores a reivindicarem o status revolucionário de seus propósitos, ao passo que as classes não capitalistas abraçarão uma timidez reformista em tudo conducente ao fracasso das lutas populares e consequente desmanche de suas conquistas socioeconômicas alcançadas em décadas de árdua luta. Esse é o caso específico do Brasil, onde o desmanche caminhou célere e profundo, sem que se oferecesse a ele qualquer séria resposta popular contrária.

A saída desse novo fracasso histórico dá um salto dialético e passa, agora, a ser visto pelas principais lideranças da esquerda da ordem como sendo o que eles denominam de revolução social, em substituição à lógica formal do reformismo, cuja proposta de transformação não escapou da lógica formal, incremental. Em certa medida repete-se o dilema do fracasso do ciclo de reformas do pré-1964, ocasião em que a contrarrevolução engata a sua marcha até hoje não interrompida.

O desmanche e a liquidação física das forças da democracia radical pela ação repressora das Forças Armadas – desde então braço policial da ditadura e do imperialismo - abriram caminho para a predominância liberal da assim chamada abertura democrática, que consegue fazer viger uma certa democracia política conservadora no corpo do projeto econômico contrarrevolucionário intocado.

No Brasil, o grande e maior partido popular da reforma incremental, o PT, em consonância com seu postulado lógico formal, ousou supor reverter por dentro a ordem econômica contrarrevolucionária, sem liquidar os fundamentos da ordem do capital a funcionar para a revolução neoliberal posta em marcha desde 1964. Na prática, serviu como instrumento de continuidade da contrarrevolução que hoje exacerba seu ímpeto antinacional e antipopular. Tal imperativo não se restringe à nossa experiência, mas a todo o espaço periférico que alimenta a reprodução global do capital financeiro.

Nós da América Latina, particularmente, estamos novamente às voltas com a questão vital não resolvida da história das revoluções burguesas no mundo ex-colonial, dos capitalismos da miséria, das sociedades condenadas de nascença a serem eternos campos de caça do capital mundial, incialmente das metrópoles ibéricas europeias – Portugal e Espanha – e, depois, sucessivamente a outros países europeus, à medida que o poder econômico e político migrava de uma potência do capital a outra, até cristalizar-se o inconteste predomínio da ainda insuperada potência norte-americana em vias de ser suplantada pela China.

Estamos às voltas com o velho tema da revolução democrática, desde sempre e para sempre desdenhadas e preteridas pelas burguesias neocoloniais. Revoluções que promovam a real independência socioeconômica das nações neocoloniais, que conquistem e mantenham a plena cidadania do trabalho frente ao capital, revoluções que serão necessariamente anticapitalistas. Contra os capitalismos da miséria e suas revoluções burguesas conservadoras que perpetuam a desigualdade e a subordinação nacional e, ao mesmo tempo, contra o capitalismo histórico em sua forma mais avançada e sua sede predadora de nações, biomas, solo e subsolo, dos trabalhadores miserabilizados e abandonados à sua sorte pela falácia do estado mínimo para a massa do povo e estado máximo para a reprodução exclusiva do capital.

É a partir de tais indagações, face a estas pelejas que envolvem a revolução e a contrarrevolução, que convidamos a todos aqueles que se interessam, pesquisam e lutam pela emancipação de nossos povos, a submeterem trabalhos a esta quinta edição da Revista Fim do Mundo.

Prazo para submissão: 06/06/2021

Previsão de publicação: agosto de 2021.

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