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OS APARELHOS PRIVADOS DE HEGEMONIA NA EDUCAÇÃO
PARANAENSE
THE PRIVATE APPARATUS OF HEGEMONY IN PARANAENSE
EDUCATION.
EL APARATO PRIVADO DE LA HEGEMONÍA EN LA EDUCACIÓN
PARANAENSE.
L'APPARATO PRIVATO DELL'EGEMONIA NELL'EDUCAZIONE
PARANAENSE
Jussara de Fátima Ivanski Ruppel
1
Michelle Fernandes Lima
2
RESUMO
Esse artigo é parte integrante da pesquisa realizada no âmbito do Programa de
Pós-graduação em Educação (PPGE/UNICENTRO/PR) e vinculada ao Grupo de
Pesquisa: Estado, Políticas e Gestão da Educação (UNICENTRO/PR), que analisou os
Aparelhos Privados de Hegemonia (APHs) no contexto de implementação da Base
Nacional Comum Curricular (BNCC) dos anos iniciais da educação em municípios
paranaenses, com ênfase no Instituto Reúna. O texto está organizado em duas partes:
sendo que num primeiro momento abordamos a concepção de Estado integral para
Gramsci e abertura do mesmo para participação e dos APHEs na esfera educacional. Em
1
Mestranda na Universidade Estadual do Centro Oeste, Campus Irati. Irati, Paraná, Brasil.
Juruppel146@gmail.com - https://orcid.org/0000-0002-5645-3039
2
Professora doutora na Universidade Estadual do Centro Oeste, Campus Irati. Irati, Paraná, Brasil.
mfernandeslima@yahoo.com.br - http://orcid.org/0000-0003-0896-4747
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seguida enfatizamos a participação do Instituto Reúna como APHE da burguesia, nas
soluções educacionais para essa implementação da BNCC nos municípios do Paraná. Por
fim, os resultados apontam que os APHEs são instrumentos da burguesia e estão
legitimados pelo modelo de Estado, entendido enquanto sociedade e sociedade política,
que encontraram na educação um campo fértil de desenvolvimento.
Palavras-chave: BNCC. Aparelhos privados de Hegemonia. Educação paranaense.
ABSTRACT
This article is an integral part of the research, carried out within the scope of the Graduate
Program in Education (PPGE/UNICENTRO/PR) and linked to the Research Group:
State, Policies and Management of Education (UNICENTRO/PR), which analyzed the
Apparatuses Deprived of Hegemony (APH) in the context of implementation of the
BNCC of the early years of education in Paraná municipalities, with emphasis on the
Reúna Institute. We start from the understanding of the State through the contributions
of Antonio Gramsci. The text is organized in two parts: in the first moment we approach
the conception of integral State for Gramsci and its opening for participation and the
APHEs in the educational sphere. Then we emphasize the participation of Instituto Reúna
as APH of the bourgeoisie, in the educational solutions for this implementation of the
BNCC in the municipalities of Paraná. Finally, the results indicate that the APHEs are
instruments of the bourgeoisie and are legitimized by the State model, understood as
society and political society, which found in education a fertile field of development.
Keywords: BNCC. Private Apparatuses of Hegemony. Education in Paraná
INTRODUÇÃO
Este artigo busca discutir a participação dos aparelhos privados de hegemonia
(APHEs), consideramos como associações, institutos, partidos políticos, e é em torno desses aparelhos que
se organizam as aspirações coletivas, seja dos grupos domínio ou dominados. Esses APHEs estão situados
no modelo de Estado, considerado por Gramsci, como integral, constituído pela sociedade política e
sociedade civil, e atuam no contexto de implementação da BNCC nos municípios
paranaenses, com destaque ao Instituto Reúna. Vale enfatizar, que o Instituto Reúna,
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considerado uma startup social
3
, foi criado em 2019, pela Fundação Lemann, logo após
a implementação da BNCC, (FARIA, 2020a, p.12). A autora observa em seus estudos
que uma vez aprovada a BNCC, as demandas da Fundação Lemann aumentaram e a
empresária Katia Smole
4
foi convidada pela Lemann para administrar o recém-criado
Instituto Reúna, que é uma das organizações com maior incidência nos projetos e nos
programas da Fundação e das suas Frentes Móveis na implementação da BNCC e do
Novo Ensino Médio.
Para que os APHs pudessem atuar junto a elaboração e agora na implementação
da BNCC foi primordial dar a devida legitimidade a esta política curricular, que embora
tenha sido conduzida por APHEs ligados às grandes corporações, conforme estudos de
(D’ÁVILA, 2018) utilizaram-se do consenso para colocá-la em curso nos municípios
brasileiros.
Utilizamos neste estudo das contribuições de Antonio Gramsci, por meio de
fragmentos dos Cadernos e as Cartas do Cárcere, nos quais o autor aborda sobre o
conceito de Estado, sociedade civil e aparelhos privados de hegemonia, na compreensão
de que as políticas educacionais são resultado desse modelo de Estado, entendido
enquanto sociedade política e sociedade civil.
Gramsci nos ajuda a entender quem são esses APHEs considerados como institutos,
associações, partidos políticos, sindicatos, igrejas, que buscam a ascensão do grupo a que
pertencem. Esses APHEs estão localizados no modelo de Estado, entendido como
integral, formado pela junção da sociedade política e sociedade civil. A hegemonia,
portanto, concentra-se no conceito de impor uma determinada concepção de mundo, e
ainda na consolidação de interesses particulares de alguns setores (ROIO; GALASTRI,
2022).
3
Uma startup de impacto social, além de unir inovação tecnologia, escalabilidade e repetibilidade na projeção e
desenvolvimento de um negócio, ela tem como objetivo gerar uma mudança positiva na sociedade, alterando o
ambiente social onde atuará, é preciso desenvolver um propósito social para esta atuação empresarial.
4
Katia Stocco Smole- Doutora em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, diretora
executiva do Instituto Reúna e fundadora do Instituto Mathema de formação e pesquisa. É conselheira do Conselho
Estadual de Educação de São Paulo onde preside a Câmara de Educação Básica, é associada do Todos Pela Educação.
É membro do Movimento Pela Base, membro do conselho administrativo da Fundação Nova Escola. Disponível em:
https://www.escavador.com/sobre/562250/katia-cristina-stocco-smole. Acesso em: 24 de jan. 2023.
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Nessa direção destacamos que aparelho privado de hegemonia (APHEs) é uma
importante categoria nessa investigação, que esses aparelhos têm se mostrado
protagonistas na organização e direcionamento das políticas educacionais. Entendemos
a BNCC como materialização dos anseios burgueses para educação, e que é expresso em
leis, planos, documentos, ou seja, a legislação vem concretizar ou legitimar uma disputa
que se deu e foi definida no plano da sociedade civil, e pode ainda, ser um instrumento,
utilizado pela classe dominante para perpetuar e manter o controle da ideologia burguesa
(SHEEN, 2007, p. 9). A partir da homologação da referida proposta curricular, estados e
municípios passaram a implementar e reorganizar seus currículos para se adequar ao
modelo vigente.
A partir da BNCC é organizado o ensino como um todo, a mesma é a referência
para formação de professores, material didático e isso oportuniza situações de
envolvimento de segmentos do setor privado nas políticas educacionais, em todo
processo educativo. Essa abertura faz com que grandes conglomerados, se organizam em
torno de um projeto educacional voltado a atender às pretensões de sua classe e estes
passam a atuar de maneira ampla nas políticas que orientam a educação a qual “[...] é
pensada, expressamente em projetos sociais em disputa, resultado de movimentos
coexistentes e contraditórios de resistência e de combate ideológico” (GONÇALVES,
2021).
Nesse sentido, é fundamental considerar a BNCC enquanto política curricular,
que foi pensada e organizada com a participação de grupos hegemônicos. Esse fator foi
marcante em pesquisas já concluídas que apontaram em seus resultados essa influência,
como a de Sakata (2018) e D’Ávila (2018). Finalizada em 2017, com a participação
acirrada dos APHEs, a BNCC, vem sendo implementada em nível nacional. Estados e
municípios se projetam para pôr em prática a referida proposta. Nesse meio, a presença
direcionadora e organizadora dos APHEs da burguesia, encontram campo lucrativo para
expandir-se, atuando em rede, se proliferam e ofertam soluções para todos os anseios de
uma dita “qualidade educacional”, qualidade essa pensada pela classe hegemônica
burguesa.
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Diante disso, este estudo apresenta num primeiro momento as concepções de
Estado para Gramsci, e como são empreendidas as políticas educacionais nesse
contexto, em seguido trazemos algumas considerações sobre o APHE Instituto Reúna e
como este vem atuando na implementação a BNCC nos municípios paranaenses.
ESTADO, APARELHOS PRIVADOS DE HEGEMONIA E AS POLÍTICAS
EDUCACIONAIS
Gramsci (2006 p. 84), reconhece o Estado como sendo formado pela sociedade
política e a sociedade civil, ou seja, comporta duas esferas principais: sociedade política,
por meio da qual a classe dominante detém o monopólio legal por meio da coerção, e a
sociedade civil, formada precisamente pelo conjunto de organizações responsável pela
elaboração e/ou difusão das ideologias, sindicatos, igrejas, escolas, ou seja para Gramsci
essas organizações são os APHEs, que são utilizados na formação do consenso, sendo a
base para a dominação (COUTINHO, 1992, p. 77), ou seja a configuração do Estado
resulta da capacidade da sociedade civil instituir-se como coloca Gramsci, parte do
Estado, transformando suas demandas em políticas públicas. (SANTOS, 2012, p.25).
No que se refere ao Estado pensado por Gramsci, o emprego dos termos
“coerção e consenso, ou seja, o Estado utiliza-se, ora da coerção, ora do consenso para
conduzir as massas (COUTINHO 2011, p.208) e manter o processo hegemônico. Ou seja,
“Estado é o lugar em que ocorre a luta por consensos travada entre as classes sociais,
com o intuito de se manter ou conquistar a hegemonia” (SAKATA, 2018, p.22). Esse
modelo de Estado serve para conservar ou promover uma determinada base econômica,
de acordo com os interesses de uma classe social fundamental, e por meio da sociedade
civil, que as classes buscam exercer sua hegemonia, o domínio ou a direção. Essa
hegemonia é praticada por meio do convencimento, ou seja, consenso, como algo natural.
Schlesener (2001, p.59) destaca que “a hegemonia se apresenta como dominação
econômica que se sustenta na direção política e cultural da sociedade, por meio da
estrutura do Estado”. Gramsci enfatiza que a questão hegemonia, torna-se uma relação
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de compromisso, ela pressupõe que se leve em conta os interesses dos grupos pelos quais
a hegemonia é exercida, os dominados se sentem parte do processo e representados.
Nessa direção, entendendo que o Estado é responsável pelo direcionamento
político e econômico a que estamos submetidos, percebemos que é também por meio
desse Estado, que se representado na sociedade civil, que acontece o processo
hegemônico. O Estado, oportuniza a participação efetiva dos APHEs na condução das
políticas educacionais.
Para compreender esse fenômeno é imprescindível assimilar que as políticas
educacionais são produto e processo dentro de um sistema. “O momento do processo, de
elaboração da tendência hegemônica, e o momento do produto, da materialização da
política”. “A Política Educacional abrange, pois, as atividades educacionais tanto da
sociedade política quanto da sociedade civil” (SHEEN, 2007,p. 10).
Entendendo, portanto, que a política educacional é o que designa o tipo de
educação é preciso olhar o campo educacional como um lugar de disputa e que vem sendo
direcionado pelos APHEs. De acordo com Neves (2010, p. 142), o “Estado define as
políticas sociais e gerencia os processos, enquanto, as organizações (fundações e
institutos) executariam a política”.
Nessa acepção, Farias (2020) lembra que essas formas de dominação burguesa
empresarial dentro do contexto histórico, social, político e econômico das relações
sociais de produção capitalista sob o comando do capital, acontece por meio da
multiplicação dos denominados braços sociais empresariais mercantilizados, ou seja, por
meio de Fundações, Institutos, que são organizações sociais que estão âmbito da
sociedade civil, ou seja, aparelhos privados de hegemonia (APHEs).
Esses APHEs se ramificam e agem de forma dinâmica, organizando-se em rede,
em torno da BNCC, isso é presente desde a elaboração e continuam participando da
implementação. Os APHEs são móveis, sendo que o objetivo de atuação deles também
muda, desenvolvendo soluções em todos os âmbitos da educação, ou seja, formação de
professores, material didático, planejamentos, organização de referencial curricular.
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A BNCC sendo uma política curricular, resultado desse Estado e conforme
estudado por D’avila (2018) é também espaço de disputa, que teve a presença de diversos
APHES em sua elaboração, especialmente a Fundação Lemann que se mostrou a grande
articuladora de todo o processo, fazendo com que houvesse o consenso na aplicação da
referida proposta, transformando-a em uma política curricular bastante aceita no cenário
brasileiro.
Tomando por base os conceitos gramscianos, percebemos que os APHEs,
utilizando-se de Institutos, Fundações, exerceram a hegemonia em prol da BNCC,
retirando do Estado o papel como único ordenador das políticas em torno da educação.
O Estado deixa de regular as políticas, todavia o financiamento continua sendo por
intermédio dos recursos públicos. A lógica por traz desses APHEs é o trabalho em rede
fazendo com que haja articulação e predominância de seus interesses. Vale enfatizar que
“é por meio do Estado que os documentos das políticas educacionais são implementados,
assim, o Estado é o aparelho capaz de tornar possível a constituição e expansão das ideias
neoliberais” (GONÇALVES, 2021, P. 60).
Fica evidente, portanto, que as políticas educacionais, no atual contexto, são
resultado desse processo de parceria entre o público e privado, ou seja, Estado e setor
privado. Retomamos dois pontos importantes “a legislação vem concretizar ou legitimar
uma disputa que se deu e foi definida no plano da sociedade civil” em que “o momento
do processo, de elaboração da tendência hegemônica, e o momento do produto, da
materialização da política, (SHEEN, 2007, p. 7).
O processo para elaboração dessas políticas se a partir da aparelhagem do Estado
brasileiro, a partir de 1990, momento em que os organismos privados, apoiaram-se no
modelo de liberal, para obterem a legitimidade e tornarem-se hegemônicos. A BNCC foi
gestada nesse modelo de Estado, aberto aos interesses da classe dominante, que se
mostrou organizada e hoje essa política curricular é o produto acabado, e passa a ser
implementada em todo o país.
Na implementação, da BNCC nos municípios paranaenses, damos destaque ao
Instituto Reúna com inúmeras soluções educacionais para a implementação da BNCC no
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estado. O Reúna foi criado a partir de 2019 e é direcionado pela Fundação Lemann,
conforme trataremos a seguir.
A IMPLEMENTAÇÃO DA BNCC NOS MUNICÍPIOS PARANAENSES: EM
DESTAQUE O INSTITUTO REUNA
Compreendemos que Estado dentro dos conceitos gramscianos é a integralidade
da incorporação: sociedade política e sociedade civil. Esse estado age, ora empregando
a coerção, ora buscando o consenso, visando atender aos interesses da burguesia que se
destacam no seio da sociedade civil participando, interferindo, gerando consenso para
que as políticas em torno da educação possam ser efetivadas em favor de sua classe.
A BNCC, conforme mencionado neste artigo, é a materialização de política que
atende aos anseios da classe dominante, exemplo disso, é a participação direcionadora
de diversos APHEs e grandes conglomerados em sua organização, conforme
mencionado nesta pesquisa, os estudos de D'avila (2018) que investigou as influências
dos agentes públicos e privados no processo de elaboração da BNCC, a autora destaca:
O contexto de elaboração da BNCC se demonstrou como território de disputa,
fortemente influenciado, conduzido e determinado por um conjunto de
sujeitos que compreendem na educação um instrumento de hegemonia que
desempenha na sociedade, ou seja, uma função determinante na manutenção
da base social dominante (D’AVILA, 2018, p. 106).
Embora a própria base evidencie em seu texto, que ocorresse a participação de
especialistas e educadores, em consultas públicas há controvérsias, e pesquisas apontam
de que o documento atende especificamente os setores empresariais, que legitimaram os
seus interesses em definir BNCC voltada para o mercado (D’ÁVILA, 2018, p. 84). Nessa
direção, Farias (2022, p. 5) ressalta que “o processo de hegemonização das pautas
educacionais empresariais tem mão dupla: a expansão do mercado educacional público
e privado e a hegemonização da ideologia empresarial”. É imprescindível dar créditos de
que essa hegemonização vem ocorrendo na implementação da BNCC, e que a educação
vem se tornando esse mercado lucrativo.
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No estado do Paraná, a implementação da BNCC vem ocorrendo, num primeiro
momento, a partir da reorganização dos Currículos. Importante frisar que o estado foi
pioneiro na reorganização de seus currículos, e que isso ocorreu em 22/11/2018, o que
resultou no Referencial Curricular do Paraná (RCP). O segundo passo, após
reorganização dos currículos estão objetivadas a formação dos professores e diretores,
a revisão dos projetos pedagógicos das escolas e a elaboração de material de apoio
(MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO).”.
O Observatório do Movimento pela Base apresenta dados sobre essa
implementação e mostra que atualmente, todos os municípios paranaenses já adaptaram
seus currículos, sendo que 394 municípios aderiram ao RCP e que somente cinco
municípios criaram currículo próprio (OBSERVATÓRIO MOVIMENTO PELA
BASE). Justificado pelo momento pandêmico, no Paraná, ainda foi elaborado o
referencial em foco, ambos os documentos, são norteadores de todas as fases da educação
e são organizados a partir da BNCC.
De acordo com dados encontrados no portal dia a dia educação, o Referencial
Curricular em foco, foi “elaborado em conjunto com a Secretaria de Educação e Esporte
do Paraná (SEED-PR) e a União dos Dirigentes Municipais de Educação do Paraná
(UNDIME-PR), com o apoio do APH, Instituto Reúna (SEED/PR)”. Vale enfatizar que
o Instituto Reúna é cria da Fundação Lemann, e foi organizado logo após a
implementação da BNCC, (FARIA, 2020b, p.12), e vem sendo dirigido pela empresária
Katia Smole, a qual foi Secretaria de Educação Básica (SEB) do Ministério da
Educação (MINISTERIO DA EDUCAÇÃO).
Entre os parceiros do Instituto Reúna, podemos destacar a Fundação Roberto
Marinho, Fundação Lemann, Instituto Iungo, Fundação Maria Cecília Souto Vidigal,
Imaginable Futures, e Itaú Social. Esses parceiros do Instituto Reúna são recorrentes nas
políticas em torno da educação, precisamos entendê-los como parte do empresariado, que
constroem alianças e que tem interesses em comum. Esses APHs presentes na educação
são unidos por seus projetos e amparados pelo Estado. Fica evidente esse amparo,
principalmente na abertura dada pela SEED/Paraná para o Reúna, na organização do
referencial curricular em foco.
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Esses APHEs se destacam pela articulação entre si e em cargos ou segmentos
públicos, justificam sua atuação pela qualidade da educação. Essa atuação vem
acontecendo via Secretarias Municipais como oferta de material didático, formação de
professores, via plataformas digitais. Uma das primeiras aparições do Instituto Reúna, se
deu efetivamente em vídeo disponibilizado aos professores municipais com seus
materiais de apoio à formação pedagógica, no início do ano letivo de 2021. A então
presidente da UNDIME PR, professora Marli Fernandes (2021), enfatizou o Programa
Educa Juntos, bem como aponta como principal apoio às defasagens. (SEED/
PARANÁ,2020).
Vale dar destaque, de que o Programa Educa Juntos, implementado pelo Decreto
5857 de 05/10/2020, tratando-se de uma parceria, governo do estado e municípios,
com vistas a direcionar os conteúdos destacados como essenciais e que estavam em
defasagem, justificada pela pandemia.
Ainda na fala de Fernandes (2021), a mesma enfatiza os materiais,
disponibilizados pelo Instituto Reúna, por meio de vídeo da Kátia Stocco Smole, a qual
apresenta questões referentes ao programa “Educa Juntos” e a parceria do Instituto com
o governo do Estado. No vídeo Kátia Smole (2021) diretora do Reúna, enfatiza o
momento pandêmico e a destaca a necessidade de priorizar conteúdo, fala também do
currículo em foco, e a parceria com o Instituto Reúna, e comenta sobre os mapas de foco,
material organizado pelo mesmo, para ajudar nessas defasagens.
Outro caminho segundo Smole (2021) é fazer uso da plataforma de apoio à
aprendizagem que o CONSED a UNDIME, apoiados pelo CAED e pelo Reúna
organizaram. A mesma contém sugestões de avaliações diagnósticas do ano do
fundamental até a terceira série do Ensino Médio, priorizando língua portuguesa e
matemática (SMOLE, 2021). É constante a presença marcante em vídeos, da diretora
Katia Smole, oportunizado em formações pedagógicas, destacando as soluções
educacionais, seja para o momento pandêmico, ou para implementação da BNCC, no
Paraná.
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Enfatizamos ainda que em diversos outros eventos, ministrados para formação de
professores na formação continuada, foram apresentados vídeos da presidente Marli
Fernandes, anunciando o Instituto Reúna com seus mapas de Foco, com ênfase na
implementação da BNCC no estado.
Nos materiais disponibilizados pelo Reúna, em seu website, percebemos a
orientação dividida entre: dois grupos, ou seja, para “secretarias”, dirigido às secretarias
municipais e/ou estaduais e “para escola”, todavia, os conteúdos são os mesmos nos dois
momentos. Ainda nesses dois grandes grupos as orientações são divididas em categorias,
que são: elaborar currículos, formar educadores, material didático, avaliar desempenho,
língua inglesa e pesquisas. Nessas categorias os conteúdos se repetem entre si e trazem a
mesma orientação, tanto para escola, quanto para secretarias.
Num direcionamento geral de todo material desse material disponível no website
do Reúna, é percebido a preocupação constante é em apresentar soluções para os
problemas da escola, seja na avaliação, na formação de professores via plataforma digital,
no direcionamento de material didático. O que chama atenção é que grande parte do
material disponibilizado no site do reúna tem parceria com outros APHEs como institutos
e associações, nacionais e internacionais, que formam um bloco histórico, para difusão
de ideias e organização da educação de acordo com princípios. Podemos destacar
Instituto British Council, uma organização internacional do Reino Unido para relações
culturais e oportunidades educacionais nas áreas de língua inglesa, Fundação Roberto
Marinho, Itaú social, Fundação Lemann, Imaginable Futures, o Instituto Iungo,
Mathema, Revista Nova Escola. Ainda aborda que participação das Secretaria de
Estado de Educação Bahia, Distrito Federal, Ceará, São Paulo, Amazonas, do CONSED
e Liderança Estratégicas de Roraima e Paraíba.
Em relatório anual do Reúna de 2021, o mesmo enfatiza as parcerias nacionais e
internacionais e destaca o desenvolvimento de “conteúdos cnicos pedagógicos para
transformar a educação apoiados em quatro frentes: currículo, material didático,
avaliação e formação docente” e ressalta o desenvolvimento do percurso formativo para
educação infantil e ensino fundamental, produto que apresenta uma seleção de
habilidades focais para cada ano, de acordo com a BNCC, e que alcançou 140 mil
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pessoas, contados em acesso ao site do instituto (INSTITUTO REÚNA, 2021).
Importante frisar que o percurso formativo, criado pelo Reúna, é o primeiro material
elaborado pelo instituto, para colocar em prática a BNCC, e contou com a parceria da
Fundação Lemann e a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, parceiros do Reúna.
Esses APHEs, organizados em rede e amparados pelo modelo de governança,
encontraram na escola um caminho para depositar seus anseios com o intuito de manter
a hegemonia e direcionar a educação para a classe trabalhadora. Construímos, portanto,
o entendimento de a iniciativa privada vem adentrando o setor político e materializando
seus anseios na organização das políticas em torno da educação.
CONSIDERÕES FINAIS
A partir do exposto acima, consideramos que as políticas educacionais
brasileiras imprimem a lógica do capital, e a educação visa responder um caráter
instrumental, atendendo aos anseios deste Estado de preparação para o mercado de
trabalho e a ampliação do capital nas mãos de diferentes aparelhos privados de
hegemonia. Esses APHEs se proliferam, estão articulados no modelo de Estado,
considerado integral, pela junção de sociedade política e sociedade civil, gerando o
consenso na elaboração e implementação da BNCC na educação brasileira.
Entendemos que o estado oportuniza a legitimação desses APHEs, que agem em
rede e apresentam um leque de soluções educacionais para a implementação da BNCC.
No estado do Paraná dentre os APHEs, destacamos o Instituto Reúna, direcionado pela
fundação Lemann, desenvolve soluções para a implementação nas redes municipais do
estado, com oferta de plataformas digitais. A utilização de seus produtos, são instigados,
por intermédio de formação de professores, oportunizados pela secretaria de educação
dos municípios, e da UNDIME. A participação do Instituto Reúna, pode ser visualizada,
ainda na construção do Referencial Curricular em Foco do Paraná, elaborada em 2020.
Quanto as suas estratégias detectamos que os APHES vêm participando da
elaboração de normas, e a partir disso, passam a oferecer plataformas, criar meios de
avaliar, direcionar os conteúdos “ditos essenciais”, são as formas de marcar o curso do
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tipo de educação que se pretende. Isso tudo vem ocorrendo oportunizado pelo modelo de
Estado considerado dentro do conceito gramsciano de integral, e são campo fértil de
abertura a atuação privada, marcada pelo consenso e coerção, que se molda as ações
capitalistas burguesas.
Referências
COUTINHO, Carlos N. 1943. Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político.
Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Campus, 1992.
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Recebido em 30 de janeiro de 2023
Aceito em 6 de fevereiro de 2023
Editado em fevereiro de 2023